CONTENTE-1

Vivemos em um mundo imperativo que a toda hora nos sugere com veemência o que devemos fazer para ter uma vida melhor. Seja você mesmo, ame o seu amor, faça o que você ama. Nas paredes das ruas e nos murais da internet, as frases se impõem a todo momento, nos incentivando a sermos mais completos e felizes (muitas delas até já apareceram no nosso projeto Autoajuda do dia, aliás). Mas esse mesmo incentivo, quando feito em excesso, também acaba nos causando uma certa angústia. Afinal, sabemos que a vida é feita também de vulnerabilidade e que ainda vamos falhar muitas vezes, por mais que a gente passe dia após dia em busca dessa satisfação total.

Não tinha idéia de quando o discurso do “Faça o que você ama” tinha começado a aparecer com tanta frequência ao meu redor. Geralmente quando percebo alguma coisa assim, minha primeira reação é achar que todo mundo está sentindo a mesma coisa (ô, pretensão!). Depois costumo fazer o recorte: isso deve ser coisa de nicho, do meu nicho, de gente que faz trabalhos criativos, que consegue inventar sua própria rotina etc. O próximo passo é sair da superficialidade e entender melhor o tema.

Depois de ler uma matéria da Slate que fala sobre como o lema “Do what you love, love what you do”, estampado em pôsteres lindos que compõe a decoração do home office (obrigada por me mandar, Jana!) pode ser uma grande armadilha, encontrei minhas amigas do trainee da Folha para um jantar. Comecei a discutir com uma delas sobre o texto. E qual não foi minha surpresa? A Bárbara tinha passado o segundo semestre de 2013 inteiro dando aulas sobre o assunto!

Fiz uma entrevista com ela. E o que ganhei em troca foi uma aula sobre a história do trabalho. Bárbara Castro é socióloga e doutora em ciências sociais pela Unicamp (Universidade de Campinas). É especialista em discussões sobre trabalho e gênero e atualmente dá aulas no curso do sociopsicologia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

“Não é todo mundo que pode, efetivamente, largar tudo e botar um mochilão nas costas (e aqui não faço nenhum julgamento moral sobre isso, é só uma questão de oportunidades e de classe), isso gera uma ansiedade absurda em quem já se sente oprimido pelo trabalho”, diz ela na entrevista. “O problema é que o que circula são sempre os casos bem sucedidos. De quem pediu demissão e inventou um negócio bem sucedido. De quem nunca trabalhou em uma firma e vive de frila, rodando o mundo enquanto escreve uma ou outra matéria. Mas o que eu sempre me pergunto é: quem pode, efetivamente fazer isso? Eu acho restrito, ingênuo e glamourizado. Porque amar o que você faz sempre vem acompanhado de ter dinheiro, morar em uma cidade incrível e cara e ser bem-sucedido. É um discurso de felicidade que, além de irreal pra maioria das pessoas, que não vivem de trabalhos criativos que podem ser feitos fora de uma empresa, traz um modelo de felicidade hermético. E acho que o que a gente precisa discutir de verdade é o que existe no trabalho tal como ele é organizado hoje, que nos faz abrir esse flanco entre produção e felicidade.”

Deu pra sentir o que vem por aí, né? Leiam a entrevista!

(A imagem que abre este post foi feita pela talentosa Ana Luiza Gomes, que também fez o design da nossa entrevista em imagens > http://contente.vc/blog/faca-o-que-voce-ama-a-entrevista-em-imagens/)

Women harvest wheat with sickles then bind it by hand in a field in 1956. PHOTOGRAPH BY FRANC AND JEAN SHORE, NATIONAL GEOGRAPHIC

 - Tenho a impressão de que esse lema “faça o que você ama, ame o que você faz” é relativamente novo. Quando eu estava na faculdade, não percebia muita gente falando isso. Hoje, no mercado de trabalho há alguns anos, me parece um imperativo. Você consegue identificar quando esse lema se tornou onipresente?

Acho que tem inúmeros fatores que ajudaram esse discurso a ganhar força e se tornar onipresente recentemente. Mas antes é legal lembrar que já no século XIX os socialistas utópicos se preocupavam com isso – e, em contrapartida, mostravam como essa preocupação existia na sociedade, porque o discurso que eles formularam nada mais era do que a tentativa de passar para o papel uma aflição coletiva.

O Fourier, lá em 1800, já dizia que prazer e trabalho era uma equação impossível de se tornar concreta. Ele inventou um modelo de pequenas comunidades, os falanstérios, que era uma organização social super orgânica e funcionalista, na qual cada um desempenharia as tarefas que mais gostasse e todos poderiam viver em harmonia. Era uma divisão do trabalho baseada nas paixões das pessoas: a tarefa de uma pessoa sempre seria necessária a outra e assim por diante. O projeto ficou só no papel porque pra existir precisava de financiamento de fora – o que já mostra como ele era insustentável – e de pessoas com paixões imutáveis – quem nunca mudou de vocação na vida? Como é que ele pretendia controlar isso? Mas é legal lembrar do Fourier pra gente pensar no que, afinal de contas, causa essa separação entre a ideia de prazer e trabalho. E aí a gente chega na própria ideia de trabalho, e do que ele significa.

Antes da Revolução Industrial, era como no Brasil da escravidão: trabalho era uma atividade braçal, realizada por pessoas que eram julgadas inferiores, mas necessário para a sobrevivência de todo mundo. Quem não trabalhava não era vagabundo. Não existia essa ideia de ética do trabalho que existe hoje. Quem não trabalhava, se dedicava às atividades que eram consideradas mais elevadas. Basta lembrar da Antiguidade e da divisão entre os servos e senhores. Os servos faziam a parte pesada do trabalho e permitiam que as pessoas sobrevivessem (porque tinham comida, roupas, artefatos), mas eram considerados pessoas de segunda classe e não participavam da vida pública. Por sua vez, quem estava na vida pública, não se dedicava às atividades mundanas, mas apenas à produção de ideias e à pólis. No livro “A Condição Humana”, a Hannah Arendt apresenta essa divisão e a ideia do que era trabalho de maneira brilhante.

O trabalho como a gente conhece hoje é o trabalho derivado da Revolução Industrial. De pessoas livres pra vender sua força de trabalho, mas que precisam vendê-la porque não têm capital para comprar terra, bens e máquinas para produzir de maneira competitiva; e de pessoas livres, mas que não têm controle, ou têm um controle muito limitado sobre o que estão produzindo – o produto final é de outra pessoa, afinal de contas.

Quando Marx falava de alienação, era disso que ele estava falando: agora o artesão não produzia mais em pequena escala porque, aos poucos, maquinários foram sendo inventados e a tarefa que ele realizava em 5 meses com 10 pessoas passou a ser feita em 5 dias por uma pessoa só que nem precisava entender como é que aquilo acontecia. Precisava só entender como a máquina funcionava. Ou seja, pra operar essas máquinas, não precisava ser qualificado. E se não precisava ser qualificado, o valor desse trabalho era menor. Começou a ficar impossível sobreviver na contracorrente (um pouco como a abertura do Brasil, na década de 1990, e a crise que desencadeou na nossa indústria. Como competir como os chineses?).

Claro que tudo isso não aconteceu sem resistência e revolta. E aí começaram a entrar em cena e teste os modelos de organização do trabalho, a gerência científica. Tivemos o Taylor e o Ford, que no começo do século XX revolucionaram as fábricas inventando um novo jeito de organizar o trabalho (pra você ter uma ideia, o Taylor cronometrava o tempo que as pessoas gastavam pra fazer uma tarefa “X” e também anotava os movimentos que elas faziam pra fazer essa mesma tarefa. Depois redesenhava tudo e dizia “Olha, daqui pra frente você produz assim, com esses movimentos”. Foi daí que nasceu, por exemplo, o controle a idas aos banheiros, a beber água etc). Tivemos o Taichi Ono, que precisava fazer a Toyota deslanchar em um Japão arrasado no pós-guerra e apostou no envolvimento do trabalhador com o trabalho. Foi ele quem inventou as equipes, o controle de qualidade, e a ideia de descentralizar o comando. E esse modelo, que nasceu pra aumentar a produtividade do trabalho, foi aos poucos se disseminando, especialmente porque era plenamente funcional ao novo tipo de economia que se organiza já no fim da década de 1960: a que David Harvey chama de capitalismo flexível, que pra resumir bem pobremente, nada mais é do que a produção descentralizada em nível global, a terceirização das atividades de uma empresa (pensem no modelo da indústria têxtil, que em geral é só uma marca e que terceiriza toda a sua produção ao redor do mundo, procurando a mão-de-obra mais barata possível), e uma sociedade que passa a viver basicamente de serviços justamente por conta dessa pulverização da produção. Afinal de contas o que permite essa febre do empreendedorismo? É a vocação natural da nossa geração ou uma necessidade real de se inserir em uma estrutura de mercado e de produção pulverizados?

Sabra sports cars are named for a prickly but sweet cactus fruit. A Sabra factory in Haifa, Israel, March 1965. PHOTOGRAPH BY B. ANTHONY STEWART, NATIONAL GEOGRAPHIC

Eu quis falar disso tudo pra falar de trabalho e prazer e desse discurso hoje porque eu gosto sempre de pensar em um nível mais estrutural e em outro, mais micro, pra entender as coisas. Nesse caso, acho fundamental pensar em como tem uma mudança recente e globalizada da maneira como o trabalho e a economia são organizados, ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho no Brasil melhorou muito (pensa que na década de 1990 a gente vivia batendo recordes de altos índices de desemprego e que ano passado, segundo os últimos dados divulgados pelo IBGE, batemos recorde do mais baixo índice de desemprego).

Esses dois elementos já ajudam a gente a entender porque esse discurso ganhou força no Brasil e no mundo nos últimos anos. Não é uma demanda nova, mas do lado de quem trabalha, as pessoas vêem como possível melhorar o lugar onde trabalham ou abrir seu próprio negócio porque houve uma mudança no discurso e na atitude empresarial, ao mesmo tempo em que as empresas terceirizaram boa parte do que produzem e precisam de alguém que lhes venda esse serviço. E do lado das empresas, há uma percepção de que o ganho de produtividade não vem só do controle mecânico de um carrasco, mas da construção de uma aliança com esses trabalhadores, com seu envolvimento nas atividades que realiza, com a ideia de que ele e suas ideias podem ser vistas no resultado do seu trabalho. Com os bons tempos que a gente vive no Brasil, em comparação ao passado recente, essa ideia também ganha força porque as pessoas que agora têm emprego não querem apenas trabalhar, mas querem ter um trabalho decente, com condições decentes e, em alguns casos, que tenha algum sentido maior do que o dinheiro. Muita gente quer se libertar do patrão, do controle do que produz, quer se sentir livre. Talvez nem todo mundo racionalize dessa forma, mas há uma urgência de se ter uma vida melhor. E isso, também, porque estamos gerando mais oportunidades de trabalho, mas também estamos gerando trabalho muito precarizado. E para todos os níveis de salário.

- Tem chance de a internet ter motivado isso? Inclusive a partir de pôsteres que enfeitam as casas de profissionais super bem sucedidos? Sempre penso que tanto na internet quanto na vida a gente vive em bolhas e acaba achando que o que um microcosmo acha é a voz do mundo. A gente tem como saber a que contigente da sociedade esse discurso está vinculado efetivamente?

Esse é um ponto super importante. A internet ajuda a ecoar esse imaginário, sim. Cansei de ver post na minha timeline de gente que “largou tudo e foi ser feliz”, seja empreendendo, seja frilando, seja juntando uma boa grana e indo morar fora pra tentar uma vida nova, com novos valores.

Para além do problema de que, olha, não é todo mundo que pode, efetivamente, largar tudo e botar um mochilão nas costas (e aqui não faço nenhum julgamento moral sobre isso, é só uma questão de oportunidades e de classe), isso gera uma ansiedade absurda em quem já se sente oprimido pelo trabalho. O problema é que o que circula são sempre os casos bem sucedidos. De quem pediu demissão e inventou um negócio bem sucedido. De quem nunca trabalhou em uma firma e vive de frila, rodando o mundo enquanto escreve uma ou outra matéria. Mas o que eu sempre me pergunto é: quem pode, efetivamente fazer isso? Eu acho restrito, ingênuo e glamourizado. Porque amar o que você faz sempre vem acompanhado de ter dinheiro, morar em uma cidade incrível e cara, e ser bem-sucedido. É um discurso de felicidade que, além de irreal pra maioria das pessoas, que não vivem de trabalhos criativos que podem ser feitos fora de uma empresa, traz um modelo de felicidade hermético. E acho que o que a gente precisa discutir de verdade é o que existe no trabalho tal como ele é organizado hoje, que nos faz abrir esse flanco entre produção e felicidade. Afinal de contas é o trabalho em si, ou seja, o ato de transformar uma coisa em outra, o que nos angustia, ou o que nos angustia é o fato de a gente produzir coisas que só fazem sentido para o dono da empresa, para quem encomendou um frila, para outras pessoas enriquecerem e construírem a vida que invejamos e queremos imitar? Até que ponto essa felicidade no que a gente faz também não tem sua medida de sucesso no que a gente consegue consumir depois de trabalhar?

Acho também que a gente precisa de heróis mais realistas que fogem do trabalho tal como ele está organizado. Tenho amigos que trabalharam com moradores de rua que contavam que estavam ali porque queriam ser livres. Livres de ter que trabalhar para ganhar dinheiro para ter uma casa para ter comida para existir socialmente. Em última instância, qual é a diferença do discurso dessa pessoa praquela que vai “comer, rezar e amar” para se sentir livre? Nesse sentido, acho que sim, os discursos de ame o que você faz são glamourizados e escondem que as pessoas reais nem sempre vão conseguir ter o trabalho dos sonhos. Ou abrir a start up que vai dar dinheiro e pagar suas contas. E esses modelos não contam que não conseguir tudo isso não é, necessariamente, culpa delas. A gente não pode nunca se esquecer de que não existe lugar pra todo mundo no alto do pódium do jeito que a nossa sociedade está organizada. Enquanto existir desigualdade social, não dá pra sair por aí vendendo felicidade baseada no trabalho e no consumo como conquista individual. Por isso, sim, apesar de disseminado, eu acho que esse discurso é tão concentrado quanto a renda (e aí, lembre-se de que a renda média do brasileiro gira em torno de R$ 1.500, sim, provavelmente menos do que muita gente que propaga esse discurso como possibilidade universal gasta em aluguel).

Workers inspect details inside a turbine in Montana, 1952. PHOTOGRAPH BY U.S. DEPARTMENT OF THE INTERIOR

- Quais são as principais correntes de pensamento sobre o assunto. Quem defende o quê?

Não conheço muito essa literatura mais de autoajuda, mas além do Fourier, que citei mais acima, tem o Andre Gorz, que defendia que as novas tecnologias ajudariam os trabalhadores a ter tempo livre para fazer as coisas que realmente lhes importavam. A ideia era que as pessoas pudessem trabalhar em meio período, já que as inteligências artificiais economizam tempo de trabalho. Mas era uma utopia de que isso seria igualmente distribuído na sociedade. No último livro dele, “Metamorfoses do Trabalho”, ele diz que essa oportunidade foi mal aproveitada justamente porque na lógica que a gente vive, de acumulação, ela não faz sentido. Na verdade, cada vez mais um grupo de pessoas qualificadas trabalha mais intensamente, e compra seu tempo livre de pessoas que lhes prestam algum serviço, como fazer sua comida, sua unha, sua depilação, sua faxina, seus drinks, seu roteiro de férias etc. Pra ele, formou-se um espécie de servidão moderna, porque as pessoas só pagam por esses serviços porque o valor deles é menor do que o que as pessoas ganham no mesmo tempo de trabalho.

- O que um trabalhador ganha e o que ele perde com essa idéia de que, se você ama o que você faz, não é trabalho?

Depende do lugar em que essa pessoa está. Se ela é alguém que efetivamente depende do trabalho para sobreviver, como é o caso da maior parcela da população, acho que essa pessoa perde a noção da subordinação à qual está submetida. No fim das contas, acho que a sociedade toda perde, porque é um jeito de docilizar as relações de classe que existem no trabalho. Se eu acho que está tudo bem porque eu amo o que eu faço, eu paro de reivindicar melhorias e passo a achar normal trabalhar 12 horas por dia sem ter banco de horas ou hora-extra. Ou acho normal trabalhar 24 horas porque, afinal de contas, é meu próprio negócio e eu preciso oferecer prazos curtos a baixos preços pra conquistar uma boa clientela (quem é que está no comando mesmo?). Mas ao mesmo tempo, no nível individual, é inegável o alívio psíquico que a ideia de ser livre ou de amar o que faz traz. É quase uma fuga da realidade. Como julgar?

- E o que o empregador ganha se valendo do mesmo tema? Existe uma estratégia das empresas para tornar essa idéia tão fluida que ninguém percebe que pode ser uma armadilha?

Com certeza ganham muito. Além da docilização dos conflitos, ganham o tempo extra de trabalho não remunerado (quem é que trabalha menos de 10 horas por dia no setor privado hoje?), ganham porque fazem equipes pequenas trabalhar exaustivamente quando poderiam ter equipes maiores trabalhando pelo mesmo resultado por menos tempo, ganham porque os benefícios que oferecem, como um ambiente bonito, umas almofadas em um canto, ou uma mesa de sinuca, custam menos do que as horas extras que ele deveriam pagar. E ganham porque com tantas microempresas prestando serviço, conseguem pagar valores baixos pelo produto que precisam.

- O discurso é muito mais ligado a profissões criativas. Não dá pra dizer que o cara que faz um trabalho mecânico e repetitivo tenha que amar o que faz. Existe aí um conflito de classe? Ou essa é uma problematização dessa mesma parcela de intelectuais e criativos?

Mas acho também legal problematizar essa ideia de trabalho criativo e mecânico e repetitivo. Acho que, no fim das contas, um marceneiro tem muito mais liberdade criativa, apesar de fazer trabalho manual, do que um jornalista que trabalha em redação, por exemplo. O que tem de não automático e repetitivo em editar um texto, dar título? De organizar cobertura de eleições? Quanta novidade consegue ser gerada se, de novo, a aposta é sempre em equipes pequenas e mal remuneradas? No fim das contas, utiliza-se sempre um modelo que, depois de aprendido, qualquer pessoa com um pouco de treinamento pode fazer. Pra qualquer trabalho, seja ele classificado como mental ou manual, existe sempre um processo de aprendizado para seguir um padrão e uso das duas coisas: trabalho mental e manual/repetitivo.

Acho que o conflito de classes é o clássico mesmo: o de quem precisa trabalhar porque não tem outro jeito de pagar as contas, e o de quem tem dinheiro pra ter uma empresa e contrata essas pessoas a baixo custo e não precisa ter esse conflito de amar o que faz. O que me preocupa, na verdade, é o discurso atual do empreendedorismo. Porque essa libertação de um patrão também não é real, né? Primeiro que nem todo mundo tem vocação pra dirigir seu próprio negócio e segundo que micro e pequena empresa, de quem tem capital restrito e muitas ideias, tem múltiplos patrões. Os clientes, no fundo, reproduzem na start up a lógica de subordinação do patrão sobre o empregado. E reproduzem, também, o controle sobre o resultado do trabalho. Por isso que sempre pergunto: mas em que medida você está livre da relação capital trabalho se continua extremamente dependente dela pra sobreviver?

- Quem não faz um trabalho criativo se torna invisível?

Acho que quem não se vende como criativo, nessas profissões mais urbanas, se torna invisível. Mas, de novo, acho que toda profissão tem um pouco de criação e um pouco de repetição. Mas tem um discurso disseminado de que as pessoas precisam ser polivalentes, multifuncionais, solucionem os problemas das empresas antes deles chegarem ao gerente, ao diretor etc. Justamente o tipo de trabalhador que o Taichi Ono, lá da Toyota, modelou pra ganhar mais produtividade.

Traffic lights are made in Shreveport, Louisiana, and sent around the U.S. and abroad, December 1947. PHOTOGRAPH BY J. BAYLOR ROBERTS, NATIONAL GEOGRAPHIC

- Dá pra amar o que se faz se o salário no fim do mês não for suficiente? Qual é a rede de proteção que alguém precisa ter para se dedicar apenas ao que quer e ama?

Acho que depende da ideia de felicidade da pessoa e da expectativa de padrão de vida também. Tem quem não se preocupe com contas que não fecham. Tem quem não durma se não tiver a segurança de que vai cair exatamente “X” reais na conta todo dia 10.

Minha avó era merendeira da escola pública de uma vila rural de 1 mil habitantes. Antes, trabalhava na roça. Hoje, aposentada, costura barra de calça pra fora porque “não aguenta ficar parada”. E a felicidade dela, além das flores que ela planta e exibe no quintal, é fazer a barra da calça da vila toda pra ter sempre gente na casa dela, perto dela, pra ela ter muita história pra contar (ela adora contar história). O que ela ostenta são os pés de rosa e a farinha de marca que usa pra fazer os pães que oferece para as visitas. E a gente? O que a gente precisa ostentar pra se sentir feliz? E quanto isso custa?

Eu gosto sempre de lembrar de “Azul é a Cor Mais Quente”. Da Adéle, que quer ser professora primária e deixa os pais da namorada chocados porque ela não quer fazer uma coisa mais sofisticada, ter uma profissão que seja mais reconhecida. E a namorada dela é artista, que não vende muitos quadros, que não se preocupa em ganhar dinheiro, mas tem um vidão oferecido pelos pais, que se orgulham dessa escolha. Esse conflito de mundos é constante na relação das duas, né? E a Adéle ama o que faz, é segura da sua escolha, mas é julgada por todos do mundo da namorada porque ninguém consegue entender que aquilo lhe basta. Ela não precisou dos pais pra fazer o que amava. Mas a namorada dela, sim. Acho que, no fim das contas, depende, de novo, das idealizações que as pessoas constroem das profissões – e da glamourização em torno delas.

- Como você vê a prática de trabalhar de graça em troca de um benefício futuro, seja uma contratação, seja o status de ter passado pelo lugar x?

Eu acho um absurdo imenso uma empresa oferecer isso para uma pessoa. Mas eu não julgo, de novo, o indivíduo que aceita. Primeiro porque todo mundo sabe que as redes que construímos no trabalho são importantes pra conseguirmos melhores trabalhos. Segundo porque ter uma grife no currículo também é fundamental pra conseguir um trabalho melhor, mais bem remunerado e pra ter sua capacidade reconhecida pelos seus pares. O que eu acho é que é inaceitável uma empresa não remunerar trabalho. Porque nem todo mundo tem escolha de não aceitar (afinal de contas, pra gerar oportunidades, é preciso deixar de ser invisível) e nem todo mundo pode aceitar (quem é que pode, efetivamente, deixar de ganhar dinheiro pra fazer uma tarefa não remunerada?). Práticas como essa só aprofundam a desigualdade que já existe no mercado de trabalho e, consequentemente, na sociedade. O que acho é que falta um pouco de Estado aí. Isso deveria ser melhor fiscalizado pelos órgãos competentes.

- Pra você, qual deveria ser o lema ideal associado ao trabalho?

Acho que o lema deveria ser “trabalho decente”. Já que vivemos em uma sociedade com essa divisão de classe, o que precisamos pra ter melhores condições de vida? Além de um Estado que nos ofereça uma boa estrutura social (saúde e educação gratuitos e de qualidade para todos, por exemplo), precisamos de um empresariado que respeite os trabalhadores e os trate com respeito. Precisamos de jornadas reais de trabalho, de remuneração decente, do cumprimento das Leis trabalhistas, de equidade salarial para homens e mulheres, brancos e negros, e de oferta de oportunidades iguais a todos. Mas infelizmente, estamos longe disso.

Workers swarm over scaffolding to erect the Nagarjuna Sagar dam in India, May 1963. PHOTOGRAPH BY JOHN SCOFIELD, NATIONAL GEOGRAPHIC

E repetindo as perguntas da Slate:

-  Quem se beneficia de transformar o trabalho em algo que você ama?

Eu não acho que não podemos amar o que fazemos. Mas também não entendo porque isso deve ser imperativo. Percebe como a ideia de amar o que se faz está sempre vinculada a uma ideia de ser feliz trabalhando? Por isso que toco sempre na palavra felicidade e na exigência de ser feliz que nos cobram o tempo todo. A Maria Rita Kehl tem se preocupado bastante com essa temática. E eu trago ela pra cá: a gente precisa ser feliz o tempo todo com o trabalho que a gente faz? Ainda que a gente ame o que a gente faça? Não podemos sofrer com as contradições que esse trabalho nos impõe? Porque não podemos assumir que ele não faz sentido? A quem isso interessa? O que é problemático é que essa narrativa de ame o que você faz seja usada para justificar excessos e exploração. No fim das contas, quem sai sempre ganhando é o empresariado. Pelo menos da maneira como o trabalho está organizado hoje, da maneira como o mercado opera hoje.

-  Por que o trabalhador não deve sentir que está trabalhando quando efetivamente ele está?

É uma forma de controle do trabalhador. A ideia de que você tem que estar feliz com o trabalho que faz torna o trabalhador mais produtivo, mais dedicado. É quase como o militante de uma causa: não se cobra pelo que se faz porque o que importa é o resultado daquele trabalho. Se a empresa cria um discurso crível da importância do seu trabalho para a sociedade ou para a vida do indivíduo, ela consegue convencê-lo de que aquele excesso de trabalho ou que a baixa remuneração valem a pena. Assim se a gente se convence de que nosso trabalho é incrível, conseguimos resolver também o sofrimento que podemos ter com as contradições que ele traz. A gente pode sofrer com essas contradições, com as limitações que temos para criar, para se realizar e se ver nas coisas que a gente faz, mas gostar do que se faz e acreditar que o que se faz tem sentido ajuda a aliviar esse sofrimento. Ajuda a gente a ver sentido, mesmo que a gente não consiga concretizar esse sentido todos os dias.