Há um ano, decidi deletar meu Facebook. E recomendo a experiência. Se você está cogitando deletar o seu, minha sugestão é a seguinte: pense um tanto no assunto, veja se sair da rede social vai fazer você continuar pensando bastante nela; se não for o caso, se delete. É mais simples do que você pensa, e faz menos falta do que você espera.

Por que decidi deletar meu Facebook:

– Estava cansada dos excessos de posts, da quantidade de “amigos” (tinha mais de 2.000, socorro!) e, principalmente, das tantas opiniões formadas rapidamente sobre absolutamente tudo;

– Tinha diminuído consideravelmente a quantidade de leitura. Me acostumei a acompanhar as notícias que as pessoas compartilhavam no meu feed. E daí percebi que na maioria das vezes elas eram trágicas ou sensacionalistas. E que a minha atenção durava o tempo do primeiro parágrafo. Queria voltar a ler jornal, revista, sites e blogs que me interessavam, e não necessariamente os mais populares da timeline;

– Passava muito tempo stalkeando a vida de quem não devia;

– Às vezes sentia que a vida dos outros era melhor que a minha. Isso era forte na época em que descobri a expressão Fomo (fear of missing out, ou medo de perder o bonde), tão adequada para aqueles momentos em que você está feliz no sofá fazendo nada, abre o Facebook e descobre que cada um está aproveitando o feriado de um jeito melhor que o outro e, então, você pensa que devia estar fazendo o mesmo…;

– Me sentia num looping interminável. Enquanto eu estivesse no computador, o Facebook estava aberto. E como eu passo muitas horas por dia usando a internet, aí já viu…;

– Não tive paciência para reorganizar, separar as pessoas por grupo, ocultar algumas, deletar outras, coisas que me recomendaram para voltar a aproveitar melhor a rede. Ia dar tanto trabalho… E, como pra mim as coisas funcionam mais na base do 8 ou 80 mesmo, voilá!

 

Ilustração de Valéria Hevia | http://cargocollective.com/valeriahevia/

Resgato um textinho que escrevi na época, estilo querido diário:

Ontem fez uma semana que eu saí do Facebook. Já vinha pensando nisso há um tempão. Minha internet tinha ficado pequena, eu só consumia as informações que meus amigos compartilhavam. E sabia das opiniões sobre qualquer assunto emitidas por mais gente do que eu precisava ter ao redor. E, pra completar, passava um tempo considerável stalkeando a vida de ex. Pra quê? Pra lembrar do que deu errado, pra comparar a vida deles com a minha, sempre achando que do lado de lá a coisa tá melhor no que no de cá? Não dava mais.

Escolhi o dia pós-aniversário pra deletar. Não tinha conseguido me livrar do meu ego, que queria ouvir vários parabéns genéricos até ser surpreendido por mensagens legais e significativas de verdade. 17 de abril, fiz o backup. Vi que não tinha quase nada nele. Fiz o advanced backup. E deixo uma sugestão pro Mark, que não vai acatá-la nunca: manda os emails dos contatos no backup! Seria incrível.

Apegada que sou, tirei print de todas as minhas postagens (é, não me preocupo com tempo perdido quando o assunto é alguma obsessão). Ia seguir o conselho da Lu de anotar os aniversários das pessoas mais importantes. Mas o meu Facebook tinha se tornado uma várzea tão grande que demoraria muitas  horas pra fazer essa triagem. Mandei email pra eles e fiz uma agendinha aos moldes de antigamente.

Enrolei, pensei mais, quase quis desistir. O processo durou umas três horas. E aí PUFT! Desativei a conta, uhu! Nos primeiros minutos, nas primeiras horas, aquele hábito de sempre de abrir o Gmail e na sequência o Facebook, aquela coisa de, enquanto estivesse na internet, ter uma aba do Face aberta me deixou agoniada. Eu ia clicar e não ia ter nada. Cliquei assim mesmo.

No segundo dia eu já tava querendo resultados. Troquei uma obsessão por outra: atingir o inbox zero, ou seja, zerar minha caixa de emails. Tinha 80 marcados com estrela, mais uns 500 no inbox. Nesse dia mesmo diminuí pra 30 com estrela e uns 100 no inbox. Quanto foco pra mudar de vício, hein?

Hoje, uma semana e um dia depois, tenho 2 marcados com estrela e 18 no inbox. Eles demandam mais, pedem que eu ouça uma música, leia um texto, veja um portfólio. E eu tô fazendo aos poucos, tentando dar atenção pra cada um, mesmo que atrasada. E tô feliz de não deixar mais as pessoas sem resposta (mesmo que elas cheguem com um ano de atraso) e não deixar a quantidade de e-mails avançar descontroladamente.

Não estar no Facebook virou um assunto. Algumas pessoas perguntaram já, notaram a ausência, mandaram mensagem, email, puxaram papo no Gtalk. Outras pra quem eu contei disseram: “Mas não pode! Você trabalha com isso!” Continuo trabalhando, mas de um perfil institucional, meu e da Lu, pelo qual podemos administrar as fanpages dos nossos projetos. É uma paz entrar lá e não ver um monte de besteira, e sim os nossos próprios projetos, que a gente ama fazer e compartilhar.

Também li um pouco mais meu Reader, alguma coisa de notícia. E definitivamente postei mais no blog e com mais cuidado, mais carinho. A curadoria melhorou. Não sei o que tá bombando, então fiz o back to basics: posto o que acho legal de verdade naquele momento.

O que eu ganhei ao deletar meu Facebook:

– Voltei a ler as notícias pelas quais eu me interessava, e não as que pipocavam na minha frente;

– Voltei a ler mais livros. Antes eu ficava dispersa muito mais tempo, hoje me concentro mais;

– Domei minha caixa de emails. Eles vão ser sempre uns Gremlins, eu sei, mas consegui responder uma quantidade absurda de emails, mesmo aqueles que tinham sido enviados para mim há dois anos. Hoje consigo ter uma caixa de entrada organizada e funcional. Tem dias em que o negócio aperta, claro, mas sinto que isso deixou de ser uma questão;

– Algumas perguntas. No começo era uma vibe mais “nossa, por que você deletou?” que vinha com um tom meio de “tá se achando”. Depois comecei a ouvir muito coisas do tipo “nossa, queria muito fazer isso também, mas não posso por conta de x, y, z”. Ah, pra continuar atualizando as páginas da Contente e o Don’t Touch, eu e a Lu temos um perfil genérico, sem amigos, que serve como administrador. Então dá pra continuar trabalhando nele sem ter uma conta de pessoa física;

– Voltei a aproveitar a minha internet e a achá-la gigante e surpreendente. Deixei o RSS de lado, reorganizei meu links preferidos na tradicional e old school barra de favoritos (e deu super certo!) e vou vendo o que quero de acordo com o mood. Hoje é dia de ver meus blogs preferidos? Vamos lá. Amanhã vou ver umas coisas de decoração e, no dia seguinte, pesquisar umas receitas e uns restaurantes legais;

– Parei de acompanhar 1 polêmica urgente por dia. Ufa!

– Voltei a usar o Twitter, que continua sendo um lugar excelente pra gente se informar bem sobre vários assuntos. Basta fazer uma boa seleção de fontes pra seguir e daí conseguimos acompanhar o que quisermos com consistência, sem esquecer, claro, de todo o humor que dá as caras por lá;

– Passei a trocar emails longos, como se fossem cartas, com alguns poucos amigos (há quanto tempo não fazia isso?). Outros também lembraram de me convidar para suas festas e aniversárioa, o que achei de uma gentileza bonita nesses tempos tão corridos e sempre cheios de notificações.

O que eu perdi quando deletei meu Facebook:

– Deixei de acompanhar discussões interessantes, principalmente em grupos. Deixei de ver o engajamento do meu irmão, de alguns amigos que acompanham de perto vários assuntos importantes;

– Deixei de ver minha família usando o Face, o que é quase sempre motivo de interjeições de fofura;

– Deixei de saber muito do que alguns amigos e conhecidos estão fazendo. É impressionante como cada vez menos gente troca emails. É melhor fazer o broadcast para os seus 1.000 amigos do que escrever para aqueles 10 mais importantes. Uma amiga lançou um livro e fez o convite pelo Face. Perdi o bonde. Devo ter perdido outras coisas também, mas não soube.

– Fechei a porta para o contato de desconhecidos, semi-conhecidos, paqueras e todos aqueles que poderiam ter puxado uma conversa que vira alguma coisa.

No meio tempo, quando o Facebook virou assunto na minha vida:

– Quando o Mark passou a exibir os posts pra cada vez menos gente, fiquei #chatiada. Do que adianta ter 26.000 fãs e ter seu conteúdo exibido pra 100 pessoas, caso você não coloque uma grana para impulsioná-lo? Chato. Cada vez que uma coisa desse tipo acontece, cresce mais o meu amor por outras redes, como o Instagram e o Twitter;

– Participei de uma mesa super legal na Campus Party, conheci mulheres incríveis que fazem projetos que misturam jornalismo e internet. Foi tão legal que depois marcamos um almoço, trocamos um monte de ideias. Ao fim, combinou-se de continuar a discussão em um grupo no Facebook. Eu não tinha Facebook. Logo, não participei. Isso acabou acontecendo mais uma ou duas vezes. E fiquei pensando se ficar off não estaria me fazendo perder algumas coisas legais de verdade;

– Quando as pessoas falavam “mas você vai perder contatos de trabalho”. Não aconteceu, viu? Não deixei de encontrar as pessoas que eu queria porque não tinha Face. Nem acho que elas deixaram de me encontrar também. Existem outros canais de comunicação – e nem tô falando do LinkedIn, que não uso. Mas email é uma coisa que se espalha, deixá-lo acessível ajuda muito. E tem o About.me também, que num Google a galera acha.

1 anos depois, fiz um novo perfil:

Um ano e e três dias depois de ter cometido Facebookcídio, criei um novo perfil. Foi uma dilema grande, fiquei pensando “ó, não, eu não quero voltar, minha vida tá ótima sem ele, discordo de tanta coisa que prefiro manter a coerência, nãaaao quero!”. No balanço, ganhei tão mais do que perdi ao deletar meu perfil…

Mesmo assim, decidi voltar. Por um motivo que provavelmente vai virar post por aqui no futuro, voltei no domingo de Páscoa. Um amigo bem engraçadinho logo comentou: “E Dani Arrais ressuscitou no terceiro dia”. Ri. E lembrei que o Facebook também pode ser leve e divertido.

Sei que quero a máxima “menos é mais”. Menos amigos, páginas e grupos. E tô gostando da oportunidade de começar do zero. Agora, a cada vez que adiciono uma pessoa, a classifico em um grupo: queridos, família, galera da internet, da publicidade, jornalistas etc. Quando os posts vão aparecendo na timeline, vejo o que me interessa ou não – e vou deixando de seguir algumas pessoas. O resultado é um feed com começo, meio e fim (sem scroll eterno, aleluia!) e com um conteúdo diversificado que me ajuda a consumir a internet de forma mais ampla todos os dias.

E vocês? Quem aí já deletou o perfil? Quem depois voltou? Quem nunca mais voltou? Vou adorar ouvir os relatos de vocês!