A estética do ranço e o pacto da indiferença
Já reparou como se consolidou um “mood” aceitável, e quase um acessório de personalidade, postar sobre o pavor de encontrar uma criança no rolê? Existe um tipo de validação social imediata quando alguém declara que não tem paciência para o choro de criança ou que prefere frequentar lugares onde a infância é terminantemente proibida. É a versão online do “quem pariu que balançe”.
E essa postura é vendida como uma afirmação de liberdade individual, mas, se olharmos de perto, ela carrega uma dose pesada de violência silenciosa. O ponto central aqui passa longe da escolha de ter ou não filhos, algo que é da esfera privada, e encosta na nossa incapacidade coletiva de enxergar a criança como um sujeito de direito. Antes de xingar a gente, vem entender?
A gente se acostumou a tratar o início da vida humana como um inconveniente logístico, um erro de sistema que precisa ser corrigido ou, na pior das hipóteses, escondido para não atrapalhar o café dos adultos produtivos. Quando uma criança ocupa o espaço público com sua natureza barulhenta e curiosa, a reação média é um olhar de julgamento que responsabiliza as famílias por não terem “domesticado” aquele ser. Como se a existência da infância fosse um evento que precisasse de um pedido de desculpas prévio. Talvez porque na sua infância ou na deles tenham olhado assim (ou até pior) pra você ou para eles.
O invisível que não vota nem consome
Historicamente, essa marginalização tem raízes profundas que o historiador Philippe Ariès detalha ao explicar que, por muito tempo, as crianças foram vistas como propriedades submissas ou meros projetos de gente, sem qualquer peso na vida cívica. O problema é que essa mentalidade ainda dita o ritmo das nossas cidades hoje e da vida em sociedade.
As crianças formam a minoria mais silenciada de todas porque elas não têm título de eleitor, não fazem boicote a marcas e não possuem voz nos debates sobre o orçamento público. Elas dependem exclusivamente da nossa disposição de ceder um pouco do nosso conforto para garantir que elas existam com dignidade.
A pesquisadora Luciana Phebo costuma reforçar que o bem-estar de uma criança depende diretamente do olhar de cuidado que vem de todo o entorno, e não apenas de quem assina a certidão de nascimento. O que a gente assume que “o filho do outro não é problema meu” é a quebra de um pacto civilizatório básico. Isso vai empurrando os pequenos para uma zona de invisibilidade que alimenta ciclos de agressão e desamparo.
A bolha do cuidado e o erro de cálculo social
Olhar para os dados da Unicef Brasil sobre como o desenho das cidades afeta o desenvolvimento infantil ajuda a entender que o buraco é bem mais embaixo. Por exemplo, uma vizinhança que ignora a existência de carrinhos de bebê ou de espaços de brincar acaba sendo uma vizinhança hostil para qualquer pessoa que não esteja no auge da sua forma física e produtiva.
Adultos que ignoram uma criança sofrendo maus tratos (quando têm plenas condições de realizar uma denúncia) podem ser lidos como cúmplices — só pra citar duas situações.
O “hater” de criança, esse personagem que a internet abraçou, ignora que a proteção da infância funciona como uma rede de segurança para a sociedade inteira. Se o bem-estar dos pequenos passasse a ser um valor compartilhado por todo mundo, o ambiente social resultaria em algo muito menos agressivo e bem mais acolhedor para todos nós.
O isolamento da parentalidade dentro de quatro paredes é um erro de cálculo que sobrecarrega as famílias e retira das crianças o direito de serem cuidadas por uma aldeia, mesmo que essa aldeia seja formada por desconhecidos que apenas respeitam o seu direito de estar ali.
O resgate do adulto que você queria ter tido por perto
A maioria de nós carrega cicatrizes de momentos em que fomos silenciados ou tratados como um estorvo pela conveniência de gente grande. Proteger a infância hoje, mesmo sem ser pai ou mãe, é uma forma de fazer as pazes com a nossa própria trajetória. Tratar o cuidado como algo coletivo exige o reconhecimento de que o silêncio absoluto não é o estado natural de uma comunidade saudável.
Será que dá para encarar o próximo encontro com uma criança barulhenta não como um ataque ao seu sossego, mas como o lembrete de que existe alguém ali tentando descobrir como o mundo funciona?
Você conseguiu chegar na maturidade e ser o adulto que protegeria a sua versão criança lá atrás?