Por que alguns homens desejam mulheres, mas não conseguem admirá-las?

Não tem nada mais brochante e perigoso do que um homem que gosta de transar com mulheres, mas não consegue valorizar nenhuma delas

Se você quer entender como funciona o sistema de “admiração” de um homem, faça um teste simples: peça para ele listar três mulheres que ele admira e que não sejam da família dele. O resultado é, quase sempre, um “cri-cri” constrangedor.

Agora, se você perguntar para ele citar homens, rs; ele vai citar um jogador, um empresário, o melhor amigo ou um CEO de tech com uma facilidade invejável. Por que quando o assunto são mulheres, a admiração parece ficar restrita ao balcão de serviços afetivos? Ele admira a mãe porque ela cuidou dele e dos irmãos; a avó porque sempre foi carinhosa e a namorada porque ela “o entende”. Fora desse cercadinho do afeto direto, a mulher vira um ponto cego.

Essa incapacidade é quase estrutural, quer ver só? Um estudo da Universidade de Purdue sobre redes de indicação e prestígio mostra que homens tendem a superestimar a competência de outros homens em quase 40% a mais do que a de mulheres com as mesmas qualificações. Isso cria o que a sociologia chama de homossociabilidade: o homem vive em um ecossistema onde a validação, o brilho e a genialidade são moedas que só circulam entre eles.

Ou seja, eles amam a companhia uns dos outros, celebram as ideias uns dos outros e guardam para as mulheres apenas a pulsão física. É uma forma de “heterossexualidade compulsória” onde o desejo é feminino, mas o respeito, a escuta e a admiração são estritamente masculinos. Quem nunca conheceu um homem assim, pode pegar o bilhete de ouro de privilegiada.

Quando um homem não consegue admirar uma mulher como um sujeito pensante, ele a desumaniza automaticamente — a gente não tá exagerando. Se ela não é digna de ser uma referência intelectual, ela vira um objeto funcional. E isso é extremamente perigoso: é um caminho muito curto entre “eu não me interesso pelo que ela diz” e “eu não preciso respeitar o que ela sente”. Se ela não é um “par”, ela é um acessório. E acessórios a gente descarta, troca ou molda conforme a nossa conveniência.

Viver nesse looping de referências masculinas atrofia a inteligência emocional. É como se eles estivessem em uma dieta de um único nutriente: só consomem o que o “brother” produz. Isso gera uma massa de homens que são extremamente competentes em reproduzir clichês de outros homens, mas que se tornam analfabetos funcionais na hora de construir intimidade de verdade, sobretudo com mulheres. Sem o reconhecimento de que a mulher à frente dele tem uma complexidade que ele não domina, a relação nunca sai da superfície. Vira um teatro de papéis pré-definidos onde ele é o protagonista e ela é o suporte emocional. Como é que se constrói algo sólido com alguém que você, lá no fundo, subestima intelectualmente todo santo dia?

Esse sistema de trocas — onde a gente doa subjetividade e eles recebem serviço — é o que mantém as relações (sobretudo heterossexuais) no raso. Quando o homem só se relaciona com a mulher sob a perspectiva do benefício (seja sexual, doméstico ou de cuidado emocional), ele anula qualquer chance de conexão real. Para a mulher, o custo disso é um esgotamento invisível: você nunca é vista como um sujeito inteiro, mas como uma prestadora de serviços de “humanidade” para alguém que se recusa a fazer o mesmo por você.

“Você já parou para notar se os homens com quem você convive conseguem te citar como uma referência de algo ou com uma admiração que não esteja sujeita aos benefícios que eles recebem de você?”

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