Um homem leva o filho ao parque, troca uma fralda, aquece uma mamadeira, e alguém no entorno comenta “que pai presente”, “que pai dedicado”, “que sorte a dela”. A mãe que faz exatamente a mesma coisa todos os dias, três vezes por dia, sem comentário nenhum, rs. Quem nunca viveu isso, né?
O mínimo que virou extraordinário
A pesquisa “Trabalho e Família” realizada pelo Instituto Datafolha em parceria com a Fundação Carlos Chagas em 2016 já apontava que, mesmo entre casais em que ambos trabalham fora, as mulheres dedicavam em média o dobro do tempo aos cuidados com filhos e tarefas domésticas em comparação aos homens. A gente já sabe que a divisão desigual não é segredo para ninguém, mas a avaliação social do que cada um faz dentro dessa divisão continua sendo tratada como se os pontos de partida fossem os mesmos.
Alguns exemplos práticos
Um pai que aparece nas consultas médicas dos filhos é descrito como “envolvido”;
Uma mãe que não aparece é negligente;
Um pai que cozinha nos fins de semana ganha elogios de toda a família estendida;
Uma mãe que não cozinha todo dia precisa se explicar.
Isso não acontece porque as pessoas são maliciosas e só. Acontece porque o que se espera de cada um foi construído de formas tão diferentes que a linha de base ficou completamente diferente também.
A filósofa Kate Manne, em seu trabalho sobre misoginia estrutural, argumenta que a expectativa de cuidado depositada nas mulheres funciona como uma obrigação moral internalizada. Quando uma mulher cuida, ela está cumprindo o que se espera dela. Quando um homem cuida, ele está fazendo algo além do que se espera.
A maternidade só existe no sacrifício
Há uma outra camada nessa história que vai além da comparação com os pais. A maternidade, como conceito social, foi construída sobre uma base muito específica: ela precisa doer para ser real. Uma mãe que parece tranquila, que tem tempo para si, que não abre mão da própria identidade inteiramente, é uma mãe suspeita.
A pesquisadora Adrienne Rich, já na década de 1970, distinguia em seu livro “Nascida de Mulher” a diferença entre a experiência vivida da maternidade e a instituição social da maternidade. A experiência pode ser rica, plural, contraditória e profundamente pessoal. A instituição impõe um formato: sacrifício total, amor incondicional que não cansa, renúncia da própria subjetividade em função dos filhos.
Qualquer maternidade que não caiba nesse formato é julgada como insuficiente.
O que essa régua faz com as famílias de verdade?
O resultado prático é que conversas sobre divisão de responsabilidades dentro das famílias partem de premissas completamente diferentes para cada lado. Ela está falando a partir da exaustão acumulada de quem faz mais do que é visto. Ele está falando a partir da percepção genuína de que já faz bastante.
Entendeu o problema?
Perguntas pra pensar:
Qual foi a última vez que você elogiou um pai por algo que nunca elogiaria uma mãe?
O homem com quem você divide ou dividiu a criação de filhos descreveria a própria contribuição da mesma forma que você descreveria?
Se a maternidade que você pratica ou observa de perto não fosse exaustiva, você ainda a reconheceria como boa maternidade?