Nós, mulheres que crescemos vendo comédias românticas e esperamos encontrar um grande amor distraidamente no supermercado

O que a cultura dos filmes trouxe de idealização para uma geração inteira de millennials?

A estrutura clássica de uma comédia romântica envolve um primeiro olhar, alguns obstáculos e mal-entendidos e, por fim, um grande gesto que resolve tudo. Ah, como é simples o amor que a gente vê no cinema, né? Mesmo com suas reviravoltas, a gente já sabe como é o final: feliz. Os desencontros, as DRs, as diferenças, tudo faz parte da história cujo final a gente já sabe desde as primeiras cenas. 

É comum a gente transferir pra realidade o que aprendemos com a ficção. E se a influência veio na adolescência, fase em que millennials consumiram esse tipo de filme, acaba virando um modelo a ser seguido. 

A gente cresceu com a ideia de que euforia e grandes gestos fazem parte do pacote. Isso sim legitimaria uma grande conquista. Poucas vezes vimos os desafios que surgem depois, o que ignora a maior parte do que constitui um relacionamento. Afinal, a vida é o que acontece depois que sobem os créditos de final feliz.

Será que as rom-coms distorceram nossa percepção do que é uma relação saudável?

Nas comédias românticas, o parceiro “perfeito” já sabe o que você quer. Comunicação é quase um detalhe. A ideia subjacente é que o amor de verdade funciona “sem esforço”. Faz me rir, né? E o quanto essa “doutrinação” cinematográfica faz a gente crescer achando que, se o relacionamento precisa de muita conversa, talvez ele ou ela não seja “the one”, a pessoa destinada a nos fazer felizes? (Até mesmo a ideia de alguém fazer a gente feliz é um tanto over, né? Primeiro a gente coloca a máscara de oxigênio da gente, depois ajuda quem está ao lado).

Puro suco de anos 1990/2000

E ainda precisamos falar dos padrões de beleza da época. As clássicas protagonistas das comédias românticas eram brancas, magras, jovens, meio “doidinhas”. Qual o efeito do vestido de Kate Hudson em “Como perder um homem em dez dias” na cabeça de tantas mulheres? 

(E se formos falar de representatividade racial ou de histórias com protagonistas LGBTQIA+ vai ser só depressão.)

Sem falar no domínio patriarcal

Nos filmes, os homens tomam a iniciativa, “resgatam” a mocinha, que parece ter uma vida que orbita em torno de um único desejo: o de ter alguém. As protagonistas não ligam muito para outras coisas que não os homens. Trabalho é pano de fundo. Amizade com outras mulheres? Também. Falta aquela amiga pra dizer: “amiga, esse homem é péssimo, está te enrolando, se liga!”. 

Nos filmes, os homens tomam a iniciativa, “resgatam” a mocinha, que parece ter uma vida que orbita em torno de um único desejo: o de ter alguém. As protagonistas não ligam muito para outras coisas que não os homens. Trabalho é pano de fundo. Amizade com outras mulheres? Também. Falta aquela amiga pra dizer: “amiga, esse homem é péssimo, está te enrolando, se liga!”.

Ainda assim, experimentamos o conforto 

Esses filmes também tiveram o poder de legitimar o desejo de ser amadas, de querer encontrar um amor, construir uma vida. A gente sabe a alegria que é deitar no sofá com um edredom e um chocolatinho, deixar o stress do dia a dia de lado e se identificar com as personagens. Tá tudo bem gostar desses filmes-conforto. Mas será que ainda temos síndrome de protagonista de comédia romântica esperando do amor a salvação?

Diante da possibilidade do amor, como as comédias românticas nos “ensinaram” a agir? Como nos moldaram sobre o que falar, como sentir e, claro, o que esperar do outro? 

O que você aprendeu com filmes de comédia romântica? Como eles moldaram sua percepção sobre o amor? Você ainda espera o encontro inusitado que vai trazer o amor da sua vida?

Se a sua vida amorosa fosse um filme, ela seria mais parecida com o quê?

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