Esse amor que você tanto espera de um homem talvez só venha das suas amigas mesmo

O amor que prometeram às mulheres não chegou. As amigas, muitas vezes, sim

Você se lembra da sua mãe tendo uma amiga íntima? Não uma conhecida de igreja, uma vizinha mais próxima, uma colega de trabalho que aparecia no aniversário das crianças. Uma amiga de verdade. E a sua avó?

Essas mulheres da sua vida tinham um grupo de outras mulheres para quem telefonava só porque sim, para rir, pedir ajuda, reclamar da vida, dividir um susto? Em muitas casas brasileiras, essa memória quase não existe. O casamento ocupava o centro da cena e a família nuclear virava tudo que aquela mulher sabia sobre afeto. 

Um ciclo bemmm familiar

A mulher entra num relacionamento e, aos poucos, reorganiza a própria órbita. Muda de bairro, às vezes de cidade. Adapta horários. Nega pequenos convites. Fura encontros. Começa a calibrar as amizades a partir do humor do casal. Em situações mais graves, enfrenta controle explícito, ciúme, monitoramento e isolamento. Em arranjos mais banais, apenas vai faltando energia. Tcharãn: você está sem amigas!

Isso acontece porque, durante muito tempo, venderam pra gente uma promessa dupla. De um lado, a velha fantasia de ser escolhida, amada, priorizada, protegida por um homem que faria da vida a dois um abrigo (risos). De outro, a embalagem repaginada do mesmo produto: agora ela também trabalharia, teria autonomia, prazer, voz, talvez independência financeira, e ainda assim encontraria no amor heterossexual um espaço de parceria, divisão justa, admiração mútua e descanso (meu deus, quem conseguiu tudo isso?!). 

Só que, para um número enorme de mulheres, não foi uma coisa nem outra. O casamento tradicional não entregou acolhimento consistente e a modernização desse arranjo tampouco distribuiu equidade como prometia. 

Aí foi que o barraco desabou, foi nessa que o meu barco se perdeu

Tá difícil sustentar o mito de que o amor romântico heterossexual foi um grande sucesso feminino, né? O que se chamou de companheirismo, em muitos casos, continuou significando sobrecarga

E a tal da construção conjunta ainda se apoia, frequentemente, no trabalho invisível da mulher. E o que se chamou de projeto de vida compartilhado fez com que ela fosse se afastando de tudo que não coubesse no casamento/amancebo/junção de escovas: a família de origem, os programas sem o parceiro, as amizades consideradas secundárias, a circulação livre pela cidade. Não é coincidência que a solidão feminina esteja ganhando nome agora. 

O relatório G.P.S. – Guia Para Socializar, produzido pelo site Mulheres e a Cidade em parceria com a 65|10 mostra que 47% das brasileiras se sentem pouco ou nada conectadas a outras pessoas. O guia parte justamente da solidão feminina como fenômeno social, e não como defeito individual ou incapacidade de “se abrir”. Ao tratar vínculo comunitário, espaço público e redes de apoio como parte da saúde social das mulheres, ele ajuda a desmontar uma crença antiga: a de que o problema está na sensibilidade excessiva de quem se sente só, quando muitas vezes o problema está no desenho da vida que essa mulher herdou.

E o que a gente faz pra lidar com essa solidão?
Começa entendendo que esse amor que você tanto almeja só venha das suas amigas, e não de um homem.

E se a gente descentralizasse o amor romântico?

Uma das formas de começar a romper a solidão feminina que herdamos das nossas mães, tias e avós é descentralizar o amor romântico. 

Parar de achar que um homem — marido, namorado, ficante ou qualquer relação atravessada por sexo e romance — vai suprir sozinho todas as nossas necessidades de afeto. Afeto é uma conta mais complexa. 

Ele também nasce de estar entre iguais, de cultivar laços que não dependem de troca sexual, trabalho doméstico ou da lógica de dar algo para receber outra coisa em troca. Nasce de ter com quem dividir a rotina, para quem ligar, com quem contar nos dias bons e ruins.

Relações despretensiosas entre mulheres têm esse poder. E se forem elas que vão ajudar a  começar a curar a solidão que tantas de nós aprendemos a chamar de vida normal?

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