Terminar? Tá doidaaa?
Se terminar aquele relacionamento pelo qual suas amigas torcem pelo fim — e no qual todo mundo já apelidou o seu companheiro de “tonhão” ou “desquerido”, porque é nítido que a relação está falida — já é difícil, tente terminar com um homem que construiu para si mesmo uma reputação tão inabalável que não só parece blindado de críticas, como faz com que você seja desacreditada e tida como doida quando vocês terminarem.
Terrível, né? Esse tipo de violência tem nome (gaslight) e assola muitas mulheres naquilo que a gente acha que é um “casamento ideal” por aí.
Ele é tão engraçado, ele é tão bonzinho, ele é tão galera… Será mesmo?
Esse arquétipo do homem gente boa funciona como uma camada de proteção social que torna qualquer crítica da parceira algo irrelevante ou fruto de um suposto desequilíbrio dela. O carisma, nesse contexto, acaba agindo como uma ferramenta de silenciamento. Ele gasta todo o estoque de paciência, escuta e gentileza com os outros, chegando em casa como um deserto emocional. O que sobra para a intimidade é o resto: o silêncio punitivo, o desinteresse pelas questões da casa ou aquela passividade agressiva que drena a energia de qualquer uma. Afinal, como alguém tão galera poderia ser uma pessoa fria e negligente entre quatro paredes?
Muitas mulheres acabam assumindo o papel de assessoras de imprensa dessa perfeição masculina sem nem perceberem. Elas suavizam as grosserias dele em público, justificam a falta de ajuda com as crianças e mantêm a estética do casal feliz para não terem que lidar com o julgamento alheio. O problema é que sustentar esse personagem de “mulher do cara mais legal do mundo” cansa. A tristeza que se vê no rosto dessas mulheres nasce justamente dessa necessidade de fingir que está tudo bem para não decepcionar o fã-clube que o marido construiu ao redor de si.
Tá, mas isso configura violência?
Se é intencional, planejado e sistemático: sim. Esse é um tipo de violência psicológica. A discrepância entre quem o cara se mostra para o mundo (prestativo, bom, amoroso, não-violento) e quem ele escolhe ser na vida privada (geralmente o contrário de tudo isso aí) é enlouquecedora pra quem convive de perto. E geralmente ganha forma quando a mulher tenta pontuar uma falha ou uma falta de apoio e ele rapidamente usa a própria reputação como escudo.
O discurso implícito é que, se todo mundo o ama, o problema só pode estar na percepção dela. Essa tática faz com que ela passe a duvidar dos próprios sentimentos, sentindo uma culpa constante por não estar feliz ao lado de alguém que todo mundo elegeu como o ápice da masculinidade saudável. A violência não precisa de gritos quando ela vem na forma de uma negação constante da realidade.
E o que a gente faz?
Diferente de uma briga no meio da rua ou uma crise de ciúmes que todo mundo assiste na mesa de bar, esse abuso acontece no silêncio do sofá. Por isso, a gente precisa de rede de apoio que não se contenta com as aparências. Os estudos que pesquisam violência simbólica em relacionamentos mostram que, quanto mais gente próxima frequenta a casa, mais difícil fica para o abusador sustentar o personagem de “cara perfeito”. A máscara cai no convívio. Se você tem aquela amiga que anda sempre triste e vulnerável, mesmo casada com um “cara ok”, não ignore. Tenta puxar conversa, faz as perguntas difíceis.
Você já passou por essa sensação de terminar um relacionamento abusivo que ninguém nem sonhava que era assim? Já sentiu que precisava proteger a reputação de um homem que não movia uma palha pela sua saúde emocional? Conhece amigas que hoje são vistas como “loucas” só porque tiveram a audácia de terminar com o boy que todo mundo achava que era o máximo?