Jurava que era hétero, daí resolvi experimentar me relacionar com mulheres e nunca mais parei, rs.

Quem são as mulheres que descobriram o amor romântico em outras depois de tanto tempo ficando com homens?

E num era hétero?

Imagine que você passou a vida inteira se relacionando apenas com um gênero e sem questionar muito se você se sentia atraída só por esse gênero mesmo. De repente, algo acontece no seu mundo: uma decepção amorosa gigante, um encantamento repentino por uma pessoa do mesmo sexo, a incapacidade de se ver em uma relação duradoura com aquela pessoa que até ontem você achava que era o seu pra sempre. Esse aqui é o roteiro de vida de muitas mulheres que, depois de anos em relacionamentos heterossexuais em que não eram felizes, têm encontrado na relação com outras mulheres aquilo que lhes faltava. Bem-vinda ao mundinho da heterossexualidade compulsória — e a sua ruína.

Afinal, o que é heterossexualidade compulsória?

Antes de mais nada, vale um disclaimer: não estamos dizendo que todas as mulheres são bissexuais ou encontrarão o amor em outras mulheres. Muito menos dizendo que relações entre mulheres são perfeitas e não arriscadas. O que estamos dizendo mesmo é que existe um “código de conduta” mais antigo do que o ato de pensar que nos faz sequer questionar a nossa sexualidade.

O nome desse código é: heterossexualidade compulsória. Ela funciona como um sistema operacional que já vem instalado no nosso cérebro desde a infância e ela atua de modo a naturalizar a atração por homens (no caso de mulheres) como a única via possível para o afeto e para a segurança. É uma estrutura que molda o desejo para que ele caiba dentro das expectativas sociais, escondendo a possibilidade de outras conexões sob o tapete da “normalidade”.

“Eu sempre tive ficantes homens. Achava os caras bonitos e atraentes — e continuo achando — e nunca tive nenhum trauma ou problema com eles. Mas, por alguma razão,  quando o assunto era namorar, ter algo mais sério ou levar um homem para apresentar em casa… Eu não conseguia nem imaginar. Era inconcebível, pra mim, ter uma relação duradoura, de acordar todos os dias com um homem, de dividir a vida. Achei que o problema era um bloqueio emocional meu, achava que amava a vida do casual mesmo (risos). Até que conheci minha atual companheira. Como eu achava que era hétero, ela era apenas minha amiga. Com o tempo, a admiração virou atração física (a mesma que eu achava que sentia só por homens), paixão. Com ela, só ficar não bastava; eu realmente queria uma vida. É engraçado, por mais que eu nunca tivesse ficado com uma mulher até os 28 anos, quando eu fechava os olhos e pensava em envelhecer, sempre via uma mulher ao meu lado. Eu só reprimia esse pensamento.” – Joyce, 29 anos, RN

Quais fatores estão fazendo as mulheres olharem pra sexualidade como um espectro?

Existe um abismo crescente entre o que as mulheres esperam de uma parceria e o que a masculinidade tradicional tem entregado. Enquanto as mulheres avançam em debates sobre saúde mental, divisão de tarefas e responsabilidade afetiva, muitos homens permanecem estacionados em modelos de comportamento que priorizam o próprio conforto. 

Esse “gap” de cuidado e de consciência emocional cria um distanciamento ideológico que cansa.

E aí, quando a mulher percebe que o esforço para manter um relacionamento heterossexual exige uma carga de trabalho invisível e exaustiva, ela passa a questionar se o problema está nela ou na estrutura da relação. A ideia de amor romântico tem passado por uma revisão profunda, onde a conexão intelectual e a troca equilibrada pesam muito mais do que a conveniência social. Ao olhar para a sexualidade como um espectro, as mulheres se dão o direito de buscar alguém que realmente fale a mesma língua emocional, independentemente do gênero, priorizando a afinidade e o acolhimento.

“Meu casamento durou sete anos e, se você perguntasse para qualquer pessoa, diriam que ele era um ótimo marido. Ele não era uma pessoa ruim, me tratava com decência, não tinha grandes defeitos óbvios, mas existia um silêncio ensurdecedor entre nós. Eu tentava conversar, queria profundidade, pedia para ele me ouvir, e a resposta nunca vinha, não tínhamos nada em comum além do casamento. Eu decidi me separar para ficar sozinha, para respirar. Foi nesse período que uma amiga muito próxima se tornou meu porto seguro. A gente conversava por horas, ela entendia minhas entrelinhas, a gente ria das mesmas bobeiras. De repente, aquele carinho mudou de tom. Quando a gente se beijou, eu entendi que eu não estava procurando um ‘homem melhor’, eu estava procurando uma conexão, só isso. Ainda bem que me descobri bissexual.” – Helena, 34 anos, ES.

O chá-revelação bissexual não é óbvio pra todo mundo

Se você chegou até aqui pensando que isso tudo é muito óbvio ou muito simples e que sim, bissexualidade existe (rs), a gente quer te lembrar que não é assim pra todo mundo. Questionar a sexualidade, a ideia formal de “família” e os próprios desejos (sexuais e afetivos) é um desafio em dobro para mulheres — principalmente se fizermos um recorte geracional. Além do fato, claro, da própria bissexualidade ou das relações entre mulheres serem invisibilizadas, tidas como “passageiras” ou meros fetiches criados para alimentar o imaginário masculino. 

Entender esse rolê todo depois de anos em relacionamentos heterossexuais significa enfrentar a desconfiança alheia e, principalmente, a própria cobrança de “como eu não percebi isso antes?”. A resposta mora justamente no fato de que ninguém nos ensinou a olhar para aquela direção.

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