A guerra fria que ninguém admite
A pior parte de trabalhar com a geração Z, para muita gente, é a sensação de que ela não se esforça o suficiente, não faz o básico e se prioriza até demais.
A pior parte de trabalhar com millennials, para muita gente, é o contrário: a impressão de que eles seguem defendendo um pacto de trabalho que os adoece, que já cobrou demais e entregou de menos.
No escritório, na agência, na startup, no hospital, na escola, no grupo de Zap da firma, o atrito entre essas duas gerações tá tenso. Vai dar pra gente trabalhar sem tretar? Rs.
O crachá, o corpo e a biografia
Millennials foram educados profissionalmente num Brasil em que ascensão social, diploma e carreira combinavam, davam certo retorno e pareciam o caminho mais linear do mundo (saudades, né?). Nem sempre funcionou, claro. Vieram crises, reestruturações, pejotização, metas inalcançáveis, jornadas esticadas, burnout antes de o burnout virar palavra de LinkedIn. Ainda assim, uma parcela dessa geração internalizou a ideia de que trabalhar muito era o que os dignificava como profissionais, como merecedores. O expediente invadia o jantar, o domingo, a saúde, o namoro, a terapia que ainda nem cabia no orçamento.
Já a geração Z, que entrou depois, encontrou esse mesmo modelo mas já muito capenguinha. O diploma ainda vale, mas não garante que você vai ocupar um bom cargo ou receber bem por isso; profissionais muito qualificados ocupam vagas de base; a pejotização tomou conta dos trabalhos e a estabilidade parece um sonho distante. Essa mesma galera também encontrou chefes exaustos (aqueles mesmos millennials que foram jovens esforçados), líderes orgulhosos de terem sobrevivido ao excesso, empresas falando em propósito enquanto trocavam gente como quem troca lâmpada e um mercado em que a tecnologia reconfigura as tarefas mais básicas.
No meio desse caldo de Brasil, o millennial esforçado, que passou no vestibular, estagiou desde o primeiro período da faculdade e perdeu inúmeros fins de semana “em nome da firma”, olha para a geração Z e enxerga soberba e falta de esforço.
A geração Z, que prefere home office, odeia happy hour com os colegas de trabalho e marca terapia no meio do expediente, olha para o millennial e enxerga alguém que fez demais e recebe de menos — e ainda acha isso bonito.
Um lado acha que o outro quer atalhos.
O outro acha que o primeiro romantiza a exploração.
“Trabalho como designer e vejo meus colegas mais velhos gastando horas em reuniões que poderiam ser um e-mail, apenas para manterem a aparência de que estão ocupados. Existe um teatro corporativo que eu não tenho paciência para encenar. Se eu consigo terminar minha entrega em quatro horas, por que preciso ficar sentado na frente do computador por oito? Quando eu questiono isso, sou lido como preguiçoso ou desinteressado. Mas a verdade é que eu valorizo meu tempo. Eu quero estudar outras coisas, quero cuidar das minhas plantas, quero viver. Os millennials que trabalham comigo parecem ter pânico do vazio. Eles preenchem cada lacuna com uma tarefa inútil para sentirem que são importantes. Para mim, a parte mais difícil é lidar com essa insegurança disfarçada de produtividade.”— Lucas, 21 anos, Designer
“Coordeno o RH de uma empresa de tecnologia e é irônico como as coisas mudaram. Eu lutei para que tivéssemos day-off no aniversário, auxílio terapia e horários flexíveis. Na minha época, isso era revolucionário. Hoje, recebo candidatos de 20 anos que acham tudo isso pouco e ainda reclamam que a cultura da empresa é ‘tóxica’ porque pedimos que venham ao escritório duas vezes por semana. É frustrante porque parece que nada é suficiente. Eu me sinto uma mediadora de conflitos de ego o dia todo. Sinto falta de um pouco de pé no chão, de entender que o trabalho também envolve tédio e tarefas chatas que precisam ser feitas.”— Beatriz, 39 anos, Coordenadora de RH
A geração Z é a mais desempregada. Por qual razão?
Em 2024, a taxa média anual de desocupação no país caiu para 6,6%, o menor patamar da série histórica iniciada em 2012; em 2025, o índice recuou mais uma vez, para 5,6%. É o tipo de número que costuma alimentar discursos otimistas sobre “retomada”, “aquecimento” e “janela de oportunidades”— porque realmente é, né? Mas tem um detalhe: num tá legal pra todo mundo não.
Na PNAD Contínua, a faixa de 18 a 24 anos seguiu com a maior taxa de desocupação, muito acima da média geral; no 3º trimestre de 2023, por exemplo, ela estava em 16,0%, enquanto a taxa total era de 7,7%, e esse desnível etário é uma marca persistente da série. Ou seja, o país melhorou sem melhorar na mesma velocidade justamente pra chamada geração Z, sobretudo aquela que não trabalha em grandes startups, mora nas periferias do país, é preta ou parda e não tá ingressando na faculdade.
Quando a gente tira os espantalhos, o que sobra?
Nem todo millennial que se esforçou horrores conseguiu retorno por esse esforço, ocupa cargo de liderança e acha chique bancar a Miranda de “O Diabo Veste Prada”.
Nem toda pessoa da geração Z vai para o trabalho de patinete, é preguiçosa e quer peitar o chefe.
Há muito mais tons de Brasil, de desigualdade social e, sim, de uma nova forma de encarar o trabalho nessa equação do que a gente gosta de admitir.
A verdade é que boa parte de nós, millennials, ainda está juntando os caquinhos das crises de 2008, 2013 e da pejotização, que ganhou força a partir de 2017 e tirou de cena os trilhos, já falhos, da estabilidade. Já eles, a temida e odiada geração Z, pelo menos no Brasil, são compostos em sua maioria por jovens cujas famílias ganham até 3 salários mínimos, moram longe dos grandes centros urbanos e estão tentando equilibrar os pratinhos entre um mercado de trabalho que quase extinguiu as vagas de início de carreira e salários que beiram o de estágio, mesmo quando ninguém mais tem idade para estagiar.
A gente tem mais em comum do que imagina.