“Eu que não saio de casa pra votar esse ano!”

Fazer você sentir que o Brasil “não tem jeito” é a forma mais rápida de te fazer parar de sonhar com o país que você merece

É quase certo que frases como essas já passaram pela sua cabeça ou surgiram em alguma conversa recente: “eu não saio de casa para votar este ano”, “meu voto não faz diferença, vai continuar tudo igual”, “votar pra quê?”. Existe uma apatia e um desânimo coletivo no que diz respeito à democracia participativa, você já sentiu? Esse sentimento aparece tanto no dia a dia quanto no momento de exercer o direito de escolha nas urnas a cada quatro anos. Como a gente saiu de um país que amava votar para essa vontade de se desligar do processo político? 

A gente tá votando menos do que em 1998

Essa apatia foi vista de forma nítida nos números das últimas eleições. Em 2022, o índice de abstenção no primeiro turno chegou a 20,9% (o menor índice desde 1998, segundo o Tribunal Superior Eleitoral), o que representa mais de 32 milhões de pessoas que não foram votar.

Nas eleições municipais de 2024, o cenário foi ainda mais drástico, com a abstenção batendo recordes e alcançando 21,7% no primeiro turno e quase 30% no segundo.

Xoxa, capenga e inconsistente

Se você também se pergunta de onde vem essa apatia, a gente te relembra: as instituições brasileiras sofreram ataques e desestabilizações constantes nos últimos quinze anos. Tudo começou a ficar mais estranho lá atrás, em 2014, quando figuras políticas como Aécio Neves, por exemplo, contestaram o resultado das eleições pela primeira vez desde a volta da democracia. De lá para cá, a situação só piorou (risos). Essa produção de narrativas de desconfiança e as falas sobre as instituições alimentam a ideia de que o voto é um esforço que não serve para nada. Óbvio que existem falhas institucionais, mas elas não são da urna eleitoral.

Uma camada de perigo

Esse pensamento carrega camadas perigosas. A primeira delas é deixar o cidadão inábil, alguém que para de tentar colaborar com a sociedade e deixa de se sentir responsável pela mudança: quem nunca, né? Independentemente de ser de direita, esquerda ou centro, o voto continua sendo uma ferramenta de transformação. Ele funciona como a primeira porta da mudança. Sozinho, o voto não resolve tudo, e o processo ativo de cidadania precisa continuar depois das eleições, mas fazer a gente desacreditar nessa ferramenta é o  jeito mais fácil de castrar a nossa cidadania.

“Ué, mas não vai mudar mesmo!” – Pensando do jeito que americano gosta

Pra entender as raízes desse pensamento também, basta observar como as pessoas nos Estados Unidos votam, ou melhor, como elas deixam de votar e desacreditam na democracia representativa. Essa nação, que serve de exemplo para a América Latina há tanto tempo, é a mesma que acredita que só o esforço individual muda a vida, que política é coisa para gente desocupada ou que o assunto é chato e complexo demais.

Se você pensar menos em crise e trabalhar mais, seu sonho americano se realiza. Isso alimenta uma ideia meio delulu de que dá para se blindar dos efeitos políticos do mundo. Mas a menos que alguém aqui seja o Elon Musk (que está, de fato, acima do Estado), e a gente imagina que ele não consome o conteúdo da Contente no Instagram, ninguém consegue se proteger dessas decisões.

Retomar a vontade de participar é uma forma de retomar o direito de exigir um futuro diferente. O voto permanece como uma das poucas ferramentas de intervenção direta na realidade, e abrir mão dele é entregar o controle da própria vida para as mãos de quem tem interesse em manter tudo exatamente como está.

Dito tudo isso, a gente quer te convidar a não abrir mão desse direito esse ano. As eleições, mais uma vez, serão disputadas com margens estreitíssimas para muitos estados e para o Governo Federal. Vale a pena ler os planos de governo para os estados e para a presidência, analisar as propostas e colocar a própria realidade em xeque. A eleição vai ser decidida justamente por quem decide não ir.

Ah, e pra você que já tem uma desculpa na ponta da língua: ainda dá tempo de regularizar a situação. O TSE permite mudar o título ou regularizar o documento até o início de maio!

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