“Ah, ele é um péssimo marido, mas é um ótimo pai!” 

A violência contra a mulher dentro de casa também atinge as crianças. Então por que essa mentira ainda circula com tanta facilidade?

“Ótimo pai” para quem, exatamente?

Nos diz se você já viveu isso ou viu acontecer em alguma familia (heterossexual e com filhos) por aí? Um casal heterossexual mora sob o mesmo teto com filhos pequenos. O homem humilha a mulher, controla o dinheiro, faz da rotina um campo minado, altera o tom de voz até a casa inteira encolher, agride emocionalmente, psicologicamente e, às vezes, fisicamente. As crianças estão ali no meio da coisa, mas não são diretamente envolvidas. Com elas, ele é afetuoso, pergunta da escola, brinca, dá colo. 

Tem como essa pessoa ser considerada um bom pai? O Brasil cresceu ouvindo que sim. Muita gente ainda repete isso sem nem perceber o tamanho do estrago escondido nessa frase. “Meu pai era ruim para a minha mãe, mas sempre foi bom pai.” “Meu marido é horrível comigo, mas trata muito bem os meus filhos.”

Só que existe algo profundamente errado nessa conta. Quando a casa é uma só, quando o medo circula pelos mesmos cômodos, quando a agressividade organiza o ar, essa divisão entre marido violento e pai admirável não passa de uma coisa que ensinaram a gente a repetir. Fruto direto de uma cultura que ensina mulheres a medir a violência apenas pelo que as agride diretamente.

E a gente precisa parar de repetir isso

Uma criança não precisa ser o alvo direto da agressão para ser atingida por ela. Essa talvez seja a peça mais importante desse quebra-cabeça, e também a mais negada. A Organização Mundial da Saúde inclui o testemunho de violência entre pais ou cuidadores como um fator de risco importante na violência contra crianças; a própria OMS afirma que a exposição à violência na infância eleva o risco de ansiedade, depressão, problemas de saúde mental, uso de álcool e drogas, dificuldades escolares e até maior vulnerabilidade à vitimização ou à perpetração de violência mais tarde. 

Quando a gente coloca essas coisas em perspectiva, a leitura do “ótimo pai” muda, né? Porque parte de uma parentalidade (e, nesse caso, paternidade) saudável é muito mais do que não tratar os filhos com violência. Também é fabricar o clima da casa: garantir previsibilidade, segurança, dignidade. É permitir que a criança aprenda o amor sem confundi-lo com medo, com controle ou com humilhação. Um homem que violenta a mãe dos próprios filhos pode até oferecer carinho em momentos isolados, mas ele destrói o chão emocional em que esse carinho pisaria.

O que a criança aprende quando ninguém chama de violência o que ela vive em casa?

Crianças aprendem observando o jeito como os adultos se olham, se interrompem, se temem, se desautorizam. Nesse ambiente violento, elas também aprendem com a porta batida, com os gritos, com as discussões que atravessam o jantar. Para o neurodesenvolvimento infantil, isso é péssimo por muitas razões.

A primeira é que, inconscientemente, a criança não separa o marido violento do pai amoroso. Para ela, essa figura é uma só. O que muda, aos seus olhos, é a forma como ele aparece em cada momento. E, diante disso, muitas crianças passam a acreditar que o próprio comportamento é capaz de decidir qual versão daquele homem vai surgir. É aí que nascem adultos que sabem ler o humor do ambiente em segundos para evitar qualquer conflito

Em segundo lugar, e isso também importa muito, existe o fato de que uma mãe agredida não consegue exercer sua maternidade de maneira saudável. Não porque lhe falte amor, disposição ou desejo de cuidar, mas porque a violência consome recursos emocionais, físicos e psíquicos que deveriam estar disponíveis para a vida.

A quem serve essa absolvição?

A eles mesmos. Homens são as únicas pessoas que podem ter uma conduta amoral e criminosa com uma mulher e, ainda assim, se fizerem o básico com os filhos, no trabalho ou na carreira, é como se todo o horror cometido fosse suavizado e “compensado”. Às mulheres e às suas crianças nunca é dado esse salvo-conduto moral — mesmo quando elas são vítimas. Então, que sejamos nós as primeiras a romper com a falácia do “péssimo marido, ótimo pai”.

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