O amém que silencia as mulheres
A gente precisa encarar o elefante branco que senta no primeiro banco de muitas igrejas brasileiras, de terno e Bíblia na mão, enquanto a esposa cobre manchas roxas com base e uma teologia da resignação. Existe um abismo entre o discurso de paz dos púlpitos e o terror vivido entre quatro paredes por uma parcela gigantesca das mulheres evangélicas no Brasil. Enquanto o país tenta digerir novos recordes de violência, a casa continua sendo o lugar mais perigoso para as brasileiras, especialmente quando a estrutura religiosa vira um terreno fértil para o silenciamento e a reincidência.
O Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio no último ano, uma alta de 4,7% em relação ao ano anterior. Se olharmos para o acumulado entre 2021 e 2025, o crescimento nos registros de feminicídio chega a assustadores 14,5%. Dentro desse cenário, as mulheres evangélicas estão no olho do furacão. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que 42,7% das mulheres evangélicas sofreram algum tipo de violência doméstica, situando esse grupo demográfico entre os maiores alvos no Brasil. Também são elas as que mais permanecem ou reincidem em relações violentas.
“Deixa o tempo de Deus agir”
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em parceria com a Nexus, mostra que, em 2025, 53% das mulheres evangélicas vítimas de violência doméstica procuram primeiro a igreja em busca de ajuda — antes mesmo de recorrer à família ou à polícia. O problema é que, ao chegar lá, muitas encontram orientações pastorais dadas sem preparo em direitos humanos ou psicologia. E acabam sendo aconselhadas a permanecer ao lado do agressor.
Quando o púlpito defende o agressor
O problema é que o repúdio institucional à violência doméstica nas igrejas costuma ser do mesmo tamanho do repúdio ao divórcio. Isso cria um beco sem saída. A orientação padrão é que a mulher saia de casa por uns dias, vá para a casa de um parente e ore pelo marido, mas não rompa o vínculo. Esse foco obsessivo na manutenção do casamento, custe o que custar, ignora que 66,3% dos feminicídios em 2025 ocorreram justamente dentro da residência da vítima.
A armadilha da mulher sábia
Pode parecer retrógrada — porque realmente é —, mas essa ideia de que a mulher é responsável por ganhar o marido pelo bom comportamento ainda é um pilar na teologia de muitas igrejas evangélicas. Existe um subtexto que diz a essas mulheres, culto após culto, que, se ele bate, é porque ela não foi mansa o suficiente. Se ele grita, é porque ela não orou o bastante.
Em 2024, as agressões físicas atingiram a maior prevalência da série histórica, com pelo menos 8,9 milhões de brasileiras sofrendo tapas, socos ou chutes no último ano. No meio evangélico, esse número é mascarado pela vergonha de admitir que o projeto de família ideal do altar pode ter se tornado um pesadelo na vida real.
| Feminicídio e religião no Brasil (2024-2025) | Estatística |
| Vítimas de feminicídio em 2025 | 1.568 |
| Aumento do feminicídio (2021-2025) | 14,5% |
| Prevalência de violência entre evangélicas | 42,7% |
| Prevalência de violência entre católicas | 35,1% |
| Vítimas que não denunciam agressão grave | 47,4% |
| Mulheres que buscam a igreja como 1º apoio | 53% |
DataSenado + Anuário da Segurança Pública
O ciclo vicioso da reincidência
Por que tantas mulheres evangélicas saem de uma relação abusiva e caem direto em outra? A resposta está na falta de desconstrução da teologia da submissão. Elas buscam um homem de Deus acreditando que o rótulo de cristão é um selo de segurança. Sem compreender que o abuso pode ser espiritual e psicológico antes de ser físico, elas repetem o padrão, buscando a cobertura espiritual de um marido a qualquer custo. O agressor crente usa o vocabulário da fé para isolar e dominar, e a igreja, ao não debater gênero, vira cúmplice dessa repetição.
Para você levar para a sua vida e para a sua igreja:
Nenhum texto bíblico justifica a manutenção de um crime. O feminicídio no Brasil atingiu recordes em 2024 e 2025, e a omissão das lideranças religiosas tem um custo em sangue. Quase metade das mulheres (47,4%) que sofreram violência grave em 2024 não fizeram nada, muitas vezes por medo de represálias ou por acreditarem que a solução era apenas espiritual. Está na hora de os púlpitos pararem de santificar o sofrimento feminino.
E se “os planos de Deus” forem você viva, inteira e livre?