Por que, desde tão cedo, homens usam a violência para lidar com a rejeição?

Quando uma menina leva um “não” ela fica triste e segue a vida. Quando um menino leva um “não” ele, muitas vezes, se torna um agressor de meninas

Era uma vez o seu primeiro fora….

Fecha os olhos e faz um exercício rápido: volta para o pátio da escola. Tenta sentir aquele cheiro de lustra-móveis misturado com lanche da cantina e o frio na barriga de ver a pessoa de quem você gostava no sétimo ano. Agora, resgata a memória da primeira vez que você sentiu o peso de um “não”. Aquele fora que deixou o rosto quente e com vontade de sumir do mapa. Se você é mulher, é bem provável que sua reação tenha sido buscar o ombro de uma amiga, chorar no banheiro ou escrever um desabafo furioso em um diário que ninguém nunca leu.

Você provavelmente não perseguiu essa pessoa, não tentou destruir a reputação dela e nem cogitou usar a tecnologia para humilhá-la publicamente. Mas, infelizmente, quando observamos os meninos no mesmo cenário, a história ganha contornos diferentes.

Para muitos deles, o fim de uma expectativa amorosa, de aceitação ou o fato de que simplesmente alguém não corresponde às expectativas deles não termina em tristeza. Explode em uma necessidade de revanche. Os meios? Inteligência Artificial, listas e rankings de bullying, grupos de ódio online e offline.

As denúncias de deepfakes sexuais (nudes falsos feitos por Inteligência Artificial) no Brasil aumentaram muito nos últimos meses. Segundo mapeamento feito pela SaferNet, houve 173 vítimas de deepfakes sexuais em instituições de ensino públicas e privadas de dez estados brasileiros, e todas são mulheres.

A violência física e o bullying também têm gênero. Como se não bastasse a violência virtual, os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica) mostram que 27,2% dos estudantes sofreram bullying nas escolas duas vezes ou mais nos 30 dias anteriores ao levantamento. Nesse cenário, 30,1% das meninas relataram bullying recorrente, praticado majoritariamente por meninos. Eles representam 16,5% daqueles que admitem praticar a agressão com frequência, aliás.

Como é ser menina nas escolas brasileiras? Um mapa segundo o PeNSE

IndicadorMeninosMeninas
Sentimento de tristeza (na maioria das vezes ou sempre)
16,7%

41%

Preocupação excessiva com o dia a dia

38,3%

61%

Vontade de se machucar de propósito

20,5%

43,4%

Sofreram cyberbullying

10,3%

15,2%

Assédio sexual (toque/beijo forçado)

10,9%

26%

Por que muitos meninos não sabem lidar com o “não”?

Existe algo de muito errado quando a construção da identidade de alguém depende da incapacidade de ouvir um “não”, né? Socialmente, usamos vários rótulos para isso: mimados, insistentes, egocêntricos. Mas, se sairmos do plano individual para observar o fenômeno de forma estrutural, percebemos que é justamente certo modelo de masculinidade que ensina os homens — que, muitas vezes, foram os meninos que praticavam bullying na escola — a enxergarem a negativa como um desafio a ser superado, e não como uma decisão irrefutável.

Assim, eles aprendem inconscientemente que as mulheres funcionam como validadoras de seus valores social, sexual e de pertencimento. Logo, possuí-la “valida” esse sujeito como homem; perdê-la ou ser rejeitado por ela exige a destruição do valor dessa “coisa” (seja por agressão, seja por perseguição, seja por difamação com fotos vazadas). O objetivo é impedir que o grupo o rebaixe por não ter conseguido a “conquista”. É exatamente nesse ponto que nasce o ressentimento.

Como isso ganha eco nas redes sociais?

A gente nem precisa chover no molhado, né? Se você está no Brasil de 2026 — este mesmo que aprovou a lei antimisoginia recentemente —, sabe que um dos propulsores para a aprovação da medida foi justamente o aumento do ódio às mulheres e às meninas no ambiente online.

E se engana quem acha que isso fica restrito aos grupos de Discord ou às IAs que tiram a roupa das meninas sem autorização. Para trazer um exemplo super recente: no mês passado, o TikTok Brasil precisou intervir e fazer uma limpa em uma “trend” que surgia como resposta ao “caso ela diga não”. Eram vídeos de meninos insinuando golpes, chutes e outras demonstrações de violência física justamente para o caso de ouvirem um “não”.

Como esses meninos estão sendo criados, afinal?

O que cria um menino agressivo? O mesmo suco de cultura que ainda enxerga como humor e “liberdade de expressão” o que claramente é violência. Que trata a insistência invasiva como se fosse “coisa de quem tem atitude”. 

Eles são criados por pais, avôs, tios e influenciadores que preferem vê-los agressivos do que expressando qualquer sentimento que seja lido como fraqueza. 

O meio, a família, outros homens, a internet… Todo mundo tem um pouco de conta no cartório.

E o que faz com que meninos rompam com o ciclo de agressividade em que já nascem fazendo parte? A gente não tem essas respostas na ponta da língua, mas sabemos de uma coisa: enquanto a violência for lida como uma ferramenta essencial para a manutenção da masculinidade, eles continuarão usando-a para ferir quem ousa estabelecer um limite.

Quantas vezes você teve medo de ir à escola por ser menina?

Porque o seu corpo estava dando os primeiros sinais de puberdade e fariam comentários; porque o seu cabelo poderia ser alvo de piada; porque o seu peso não parecia com o das outras meninas… Ou simplesmente porque você disse não. Ser o principal alvo de bullying e agressão física tem gênero,  tem raça e, com certeza, precisa ter fim. Criar um ambiente escolar seguro para as meninas parte, também, de reconhecer esse cenário e parar de tratar como “problemas de convivência” o que são questões óbvias de violência.

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