As maiores vítimas de abuso sexual no Brasil não têm nem idade para serem chamadas de mulheres ainda

Precisamos falar sobre o abuso cometido contra meninas

A gente cresceu ouvindo que o perigo mora na rua, no homem estranho que vem pelo beco escuro, mas os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 dão um soco no estômago dessa percepção. Mais de 61% das vítimas de estupro no país possuem  entre 0 e 13 anos de idade — e sofreram este tipo de violência dentro do seio familiar ou de pessoas próximas. 

Isso significa que a maior parte da população que sofre violência sexual em solo brasileiro ainda brinca de boneca, gosta de dancinhas de TikTok ou está descobrindo como usar um desodorante.

O que a idade nos diz?

Desses casos, 67.204 foram de estupro de vulnerável, categoria que atinge principalmente menores de 14 anos. E aí aparece a imagem que o debate público adora borrar: no estupro de vulnerável, o número de meninas vítimas chegou a quase 56 mil em 2024, cerca de cinco vezes o número de meninos. Quando o assunto é violência sexual, o Brasil está falando, em larga escala, de meninas. Chamar tudo de “violência contra a mulher” pode até parecer um guarda-chuva útil, mas também funciona como uma névoa. Debaixo dela, parte da infância some.

Quando uma menina de 10, 11, 12 anos entra na estatística como se estivesse no mesmo pacote simbólico de uma mulher adulta, há uma perda importante de foco. Mudam o tipo de vulnerabilidade, a relação com o agressor, a capacidade de pedir ajuda, a leitura social do que aconteceu e até a resposta do Estado.

O Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil, publicado pelo UNICEF com dados do Fórum, escancara isso ao mostrar que 87,3% das vítimas de violência sexual entre crianças e adolescentes são do sexo feminino, que 48,3% têm entre 10 e 14 anos e que 52,8% são negras. O centro dessa tragédia tem idade, gênero e cor. 

Onde entra a adultização nisso?

Talvez por isso seja tão confortável empurrar meninas para a prateleira da “mulherzinha”, da “mocinha precoce”, da “já sabe o que faz”. A adultização funciona como uma gambiarra: ela encurta a infância da vítima e alonga a tolerância social com quem a violou. Quando uma menina é lida como alguém “mais madura”, “adiantada” ou “provocante”, a violência encontra um disfarce socialmente aceitável. 

O estudo “Girlhood Interrupted”, do Centro sobre Pobreza e Desigualdade da Georgetown Law, mostrou que meninas negras são percebidas por adultos como menos inocentes, mais velhas do que realmente são e menos merecedoras de cuidado e proteção, com esse viés aparecendo já entre 5 e 14 anos.

Embora o estudo seja dos Estados Unidos, ele ajuda a nomear uma lógica que conversa demais com o Brasil, país em que a maioria das vítimas infantis e adolescentes de violência sexual também é negra.

E o que a internet tem a ver com isso?

A internet deu um novo fôlego para essa exploração. Se antes o abuso exigia uma proximidade física constante, hoje a veiculação de conteúdos inadequados de crianças e adolescentes atingiu níveis industriais. Plataformas que parecem inofensivas ou focadas em nichos, como o Discord, o Kawaii e o Telegram, acabam funcionando como territórios sem lei onde vídeos e fotos de meninas são trocados, vendidos e consumidos em fóruns que a maioria dos pais nem sabe que existem. 

O aumento da produção desse tipo de material digital está diretamente ligado à sensação de impunidade e ao fato de que o algoritmo prioriza o engajamento em vez da proteção de quem está atrás da tela.

Vão fazer o quê, Big Techs?

Se uma parte considerável desse problema acontece no digital e se manifesta na vida real de milhares de meninas, o que o Estado brasileiro está esperando para agir no que diz respeito às Big Techs? E o que essas mesmas empresas de tecnologia, cientes dos vieses algorítmicos e das brechas em suas próprias redes sociais, estão esperando para colaborar, agir e estancar essa sangria que atinge as infâncias?

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