E se isso for o básico?
Presta atenção na próxima vez que alguém descrever um homem bom. As chances são altas de que a descrição seja mais ou menos assim: nunca levantou a mão, nunca xingou, nunca sumiu sem dar satisfação. São elogios construídos no negativo, já percebeu? Na ausência de comportamentos que uma pessoa adulta simplesmente não deveria ter. E todo mundo ao redor acena com a cabeça como se aquilo fosse um currículo impressionante, rs.
O que a violência em massa faz com o que a gente aceita?
O Brasil registrou recorde de feminicídios no último ano, número que convive com uma subnotificação enorme de outras formas de violência: agressões físicas que não chegam a matar, controle financeiro, perseguição, violência psicológica que não deixa marca visível mas deixa marca. Com a violência extrema aparecendo no noticiário toda semana, ela passa a funcionar como o ponto de referência inconsciente para o que é intolerável, e tudo que fica abaixo desse ponto começa a parecer razoável por comparação.
O efeito prático disso é que qualquer comportamento acima do piso mais brutal já parece generoso. Afinal, se a média dos homens brasileiros é tão violenta, um que não represente esse tipo de ameaça já tá fazendo muito, certo? Errado. Mas é assim que a gente tem agido pra tentar se relacionar.
O homem que não grita já parece tranquilo. O que não verifica o celular da parceira já parece respeitoso. O que lembra do aniversário sem precisar de lembrete já parece atencioso. Mas você percebe que, apesar de não serem tóxicas, nenhuma dessas coisas são virtudes também? Esses são apenas comportamentos básicos de quem está numa relação, mas o contexto em que estão inseridos faz com que pareçam conquistas que merecem reconhecimento.
A teoria do Nice Guy
Se você cresceu consumindo entretenimento (séries, livros, filmes) norte-americano, já deu de cara com esse tipo de personagem o tempo todo. O “cara legal” é aquele personagem que se destaca dos demais homens da trama não porque é incrível ou entrega rios de gentileza, mas porque não é “igual” aos outros: não bate, não xinga, não ameaça. A teoria do Nice Guy, discutida amplamente em psicologia social e desenvolvida pelo pesquisador Robert Glover no livro “No More Mr. Nice Guy”, descreve justamente um padrão de comportamento masculino em que a “bondade” funciona como identidade construída pela negação.
O problema dessa definição toda é que ela não diz nada sobre o que ele de fato oferece na prática, sobre como se comporta numa briga, sobre se aparece quando a situação fica feia, sobre se divide as responsabilidades do dia a dia ou só as que aparecem na foto.
A distância entre não ser violento e ser genuinamente respeitoso é enorme, e é exatamente nessa distância que muita gente passa anos sem perceber que está. Um homem pode nunca levantar a voz e, ainda assim, fazer a parceira sentir que o que ela sente é exagero. Pode nunca controlar o dinheiro formalmente e, ainda assim, tomar todas as decisões que importam sem consultar ninguém. Pode ser ótimo em público e completamente ausente em privado, presente no corpo, mas sumido em tudo o que exige algum esforço emocional. Essas coisas não chegam à delegacia, e é por isso que são tão difíceis de nomear enquanto o único parâmetro disponível é o homem que agride.
O que o radar calibrado para o pior deixa passar
Desde cedo, mulheres aprendem a identificar os sinais mais explícitos de perigo: você sabe descrever um cara abusivo, né? Esse aprendizado é real e necessário, mas afina o olhar para a violência escancarada e acaba embutando o olhar para tudo que fica numa zona mais cinzenta, onde os comportamentos problemáticos cabem dentro de uma narrativa que soa razoável e ninguém ao redor sinaliza que algo está errado.
Daí aparecem as explicações do cotidiano: ele não é controlador, é ciumento porque gosta de demonstrar. Frieza? Não, magina, o fulano só é reservado, sabe?. Cada uma dessas leituras faz algum sentido isolada, especialmente quando o ponto de comparação é um homem que agride fisicamente. Mas o conjunto delas, ao longo de meses e anos, descreve uma relação em que uma pessoa está constantemente se encolhendo para caber no espaço que a outra deixa, e chamando isso de jeitinho do casal.
Antes de achar que esse cara básico é o homem mais legal do mundo, responde pra gente:
O que você listaria se alguém pedisse para descrever um homem bom na sua vida?
Quantos itens dessa lista são ausências de comportamentos ruins?
Se uma amiga descrevesse o parceiro pelos mesmos critérios que você usa para descrever o seu, o que você pensaria?