Eu tô velho demais pra só ter amigo de farra e de festa

Como cultivar amizades que ficam na sua vida na saúde, na doença, na riqueza e na pobreza?

O tal do amigo de copo também é amigo da vida?

Aos 20 anos, a vida social parece um buffet livre onde a gente aceita qualquer convite para um drink na terça à tarde como se a energia fosse infinita. O problema é que a fase dois do game chega rápido e, quando os 30+ batem na porta, aquela empolgação para o happy hour eterno começa a minguar. A gente percebe que passou uma década colecionando parceiros de brinde, de festa e de farra que são incríveis, mas que poucas vezes querem ir além disso na sua vida. Dá pra ter os dois ou estamos sonhando? Qual o segredo de quem consegue o melhor dos dois mundos?

Procura-se amigos que:

  • Me acompanhem num exame de rotina ou pra resolver burocracia no centro;
  • Que não tenham medo de discutir a relação e falar o que tá ruim;
  • Que queiram me ouvir falar de meme, mas também das minhas tretas familiares;
  • Que não queiram saber de mim só pra pedir favores;
  • Que não se afastem quando o bicho pegar (perda de emprego, doença, enfrentar um luto).

É fácil achar quem divide o combo de gin, mas quem divide o peso de um dia ruim? (Perdoem a rima infame) Ou uma temporada inteira em que sua vida virou de cabeça pra baixo? Meses ruins? Ou falta de energia pra sair? Ou um luto? Em certo momento chegamos a uma fase da vida em que as amizades de conveniência começam a perder o sentido porque o tempo passa a ser o nosso recurso mais escasso. Se a única coisa que une duas pessoas é momentos de euforia, a amizade vira refém dessas oportunidades — e a vida num é um morango.

Poxa, Bauman, a gente achava que as relações estavam só líquidas, mas elas estão gasosas!

Perceber que você anda defasado de amizades mais profundas geralmente vem acompanhado de alguma ruptura: um luto, um término ou aquela demissão inesperada que tira o nosso chão. Nessas horas, a vontade de ser “a alma da festa” desaparece, e é aí que a gente percebe o estado físico das nossas conexões. O sociólogo Zygmunt Bauman falava da liquidez, mas muita gente experimenta hoje amizades gasosas, que simplesmente evaporam quando o ambiente esfria ou quando a gente perde a utilidade social de ser uma companhia divertida. Só quem viveu sabe, né?

O que isso nos diz sobre a nossa incapacidade de segurar a marimba?

É preciso coragem para admitir que, muitas vezes, nós também somos o amigo que só serve para os momentos de pódio. Temos uma dificuldade geracional de segurar a marimba alheia porque lidamos muito mal com a nossa própria vulnerabilidade. Quando a vida de alguém próximo sai do eixo, isso funciona como um espelho que reflete as nossas próprias bagunças não resolvidas. Acabamos projetando essa incapacidade no outro e sumindo, porque é muito mais confortável ser legal no brilho do que sustentar uma conversa difícil quando o mundo de alguém está desmoronando. Estar disponível para o outro exige que a gente tenha feito as pazes com a nossa própria imperfeição primeiro.

Nossos pais tinham amigos melhores que os nossos? É uma treta geracional?

Nossos pais viviam em uma lógica de vizinhança e estabilidade profissional que criava espaços orgânicos de convivência sem que ninguém precisasse “agendar” um café com três semanas de antecedência. Hoje, a gente chama de amizade o ato de compartilhar Reels e memes, mas isso é só um paliativo para a solidão. A ausência de espaços de socialização que não envolvam consumo ou festa faz com que a gente seja amigo apenas casualmente. Sem a convivência do dia a dia, aquela conversa na calçada ou o apoio nas tarefas domésticas, as relações perdem a chance de criar raízes profundas também.

Para querer esse amigo, você tem que ser esse amigo!

Todo mundo quer uma rede de apoio para chamar de sua, mas poucos estão disponíveis para ocupar esse papel na vida alheia. Para acessar essa profundidade, precisamos sair do modo automático e aceitar o caos do outro. Amizade é uma via de mão dupla que exige tempo e, principalmente, a coragem de estar presente quando as coisas não estão 100% organizadas. Gostar da ideia de ter amigos de verdade implica em estar pronto para ser o suporte de alguém, viu?

Perguntas incômodas para levar pra terapia (e para as amizades)

  • Quem restaria se você parasse de sugerir o bar ou a festa?
  • Você sabe dos problemas reais de quem você chama de melhor amigo?
  • Quando foi a última vez que você foi rede de apoio sem ninguém precisar pedir?
  • Sua amizade sobreviveria a um mês sem internet e sem consumo de álcool?
  • Você é o amigo que segura a marimba ou o que só aparece quando o clima está leve?

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