Tinha uma época em que pular o café da manhã era confissão de coisa errada. A criança que ia pra escola sem comer recebia bilhete da professora, a moça que dizia não estar com fome ouvia da avó que isso era coisa de gente que tava doente e existia uma ética coletiva de que, se a gente tá num aniversário ou num encontro entre amigos, ninguém levava marmita de casa ou nem tocava na comida servida.
Em algum lugar dos últimos quinze anos esse roteiro foi reescrito. Hoje, dizer que não comeu o dia todo passou a render legenda comemorativa de Instagram. Pular refeição ganhou nome bonito e função de prova de disciplina. E o discurso que antes ficava escondido em revista feminina dos anos noventa, com a famosa dieta da sopa de repolho, a da lua, a do tipo sanguíneo, agora circula em podcast de duas horas, com médico endocrinologista convidado, gráfico de glicemia projetado no fundo e patrocínio de pote de proteína. Passar fome (voluntariamente) se tornou “cool” e é vendido como saúde na internet.
O problema central nem é o que cada pessoa coloca no prato dela. O que está em curso é o sequestro completo do vocabulário sobre alimentação pra travestir restrição de virtude moral, e isso pega gente comum sem qualquer transtorno alimentar prévio e empurra ela pra um lugar que, há vinte anos, qualquer pediatra reconheceria como sinal de alerta.
Uma versão piorada das dietas dos anos 90
Quem cresceu olhando as bancas dos anos noventa lembra das chamadas de capa: “perca cinco quilos em uma semana com a dieta da sopa de repolho”, “emagreça comendo abacaxi em jejum”, “os sete pecados alimentares que estão te fazendo engordar”. Aquele material era assumidamente folclórico; não era vendido como transtorno alimentar, mas também ninguém chamava de saúde.
A diferença pra 2026 é que o roteiro continua o mesmo, só que com cara de protocolo clínico. Hoje a dieta carnívora, na qual a pessoa come exclusivamente carne, ovo e manteiga (!!!), é defendida, pasmem, por profissionais de saúde. A dieta do ovo, do jejum prolongado de setenta e duas horas, da água com sal rosa terapêutico, do café com manteiga substituindo refeição, todas elas reapareceram com nova embalagem.
O Conselho Federal de Nutricionistas publicou em 2023 e 2024 notas técnicas alertando que muitas dessas práticas, quando seguidas sem acompanhamento individualizado, configuram risco real à saúde, desde deficiência de fibras, cálcio e ferro até quadros graves de cetose, comprometimento renal e ressurgimento de transtornos alimentares antes em remissão. O Conselho Federal de Medicina também já se manifestou repetidamente contra propaganda médica que prometa emagrecimento rápido ou que prescreva protocolo único para grupos amplos da população. As notas existem, acessíveis no site dos conselhos, mas né? A internet brasileira segue ignorando.
Fome como performance
A mudança mais sutil dessa última década foi a moralização da fome. Antes, ficar muitas horas sem comer era considerado descuido com o próprio corpo. Aparece em conversa de academia, onde a galera mede quem aguenta mais tempo só com café preto. Aparece nas legendas que descrevem a primeira refeição do dia como se fosse conquista olímpica, geralmente acompanhada da palavra disciplina em maiúsculas e também na ideia de que, se obrigar a fazer jejum é sinônimo de controle e disciplina além do corpo.
A gente não tá dizendo que défict calórico não é importante e que jejum não é recomendado em determinadas circunstâncias. O que estamos dizendo é que escolher, deliberadamente e sem acompanhamento, passar horas a fio sem se alimentar não é sinônimo de saúde nem aqui nem na China.
E o sucesso desse tipo de discurso só é possível porque a fome deixou de ser sinal corporal básico e foi promovida a métrica de produtividade. Quem come pouco trabalha melhor, segundo o discurso. Quem aguenta mais tempo sem comer tem autocontrole, segundo o discurso. Quem cede a um pão de queijo às quinze horas é fraco, segundo o discurso. O detalhe é que cada uma dessas frases conversa diretamente com sintomas clássicos descritos pela literatura médica sobre transtornos alimentares restritivos.
A diferença entre uma anorexia em fase inicial e uma rotina de bem-estar aspiracional, em 2026, está cada vez mais tênue quando encaramos o tipo de discurso propagado. Esse é o desconforto que pouca gente quer encarar.
O Brasil paradoxal, onde uma parte passa fome obrigada e a outra paga pra passar
Existe uma camada da população que não escolhe pular refeição. Falta arroz, falta feijão, falta leite, falta proteína. Existe outra camada, em geral mais escolarizada e com renda razoável, que paga caro pra reproduzir voluntariamente o que a primeira camada gostaria de evitar a vida toda. Essa coincidência diz alguma coisa importante sobre o que a sociedade brasileira aprendeu a chamar de privilégio. A capacidade de restringir, de selecionar pouco, de escolher com critério obsessivo, deixou de ser uma resposta natural à abundância e ganhou status de bem cultural caro, sinal de pertencimento de classe.
A nutrição séria diz uma coisa, o feed diz outra
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a SBEM, vem reforçando desde 2022 que dietas extremamente restritivas, especialmente as que excluem grupos alimentares inteiros sem justificativa clínica, costumam falhar no longo prazo e podem agravar quadros metabólicos preexistentes, como diabetes e dislipidemias. A Associação Brasileira de Nutrologia, a Abran, segue na mesma linha.
A internet brasileira ignorou tudo. O conteúdo que promete transformação rápida engaja mais e o vídeo de antes e depois engaja mais ainda. O salvamento e o compartilhamento de protocolo radical disparam em comparação a conteúdo de moderação. Quem fala em individualização do plano alimentar, em respeito à fome, em equilíbrio sustentável, perde no engajamento pra quem promete seis quilos em três semanas com a dieta da estrela do momento.
Como diferenciar disciplina de transtorno alimentar quando o discurso é igual
Em primeiro lugar, comportamento alimentar saudável é flexível. Quem come bem consegue ter, acima de tudo, equilíbrio de escolhas. No momento em que o pensamento sobre comida e corpo ocupa mais espaço mental do que qualquer outro tópico recorrente da vida, incluindo trabalho e relacionamentos, a balança já pendeu pra um lado preocupante.
Em segundo lugar, alimentação saudável não dói. Sentir tontura recorrente, frio constante, queda de cabelo, atraso menstrual em meninas e mulheres, perda muscular em homens, irritabilidade fora do padrão, queda de libido e dificuldade real de concentração não são resultados naturais de comer bem.
Em terceiro lugar, plano alimentar de verdade individualizado raramente é igual pra duas pessoas diferentes. Quem segue um nutricionista sério recebe orientação que considera sexo, idade, histórico clínico, contexto cultural, rotina de trabalho, preferência pessoal, condição financeira, fase da vida. Qualquer protocolo único, vendido em pacote fechado e replicado da mesma forma pra milhares de pessoas, com nome bonito e capa caprichada, deixa de ser nutrição clínica e passa a ser produto digital fantasiado de tratamento.
O dia em que comer normal voltar a ser revolucionário
Há um cenário possível em que a normalidade alimentar do brasileiro médio, com almoço de prato cheio, café da tarde com pão, jantar leve, sobremesa nos finais de semana e brigadeiro de festa de criança, deixa de ser tratada como descuido e volta a ocupar o lugar que sempre teve: o de vida adulta funcionando.
A próxima geração de meninas brasileiras está crescendo lendo legenda que diz que a influencer ficou o dia inteiro com café preto e se sentiu poderosa. Está vendo médico de jaleco recomendar que elas comam uma vez por dia. Está aprendendo, sem ninguém explicar com essas palavras, que magreza ganhou um significado novo: o de status. Já chega, né? Comer normal é revolucionário.