Desde quando transar com homens ficou tão agressivo e performático?

Do grindr ao tinder: homens gays e mulheres não tão sendo felizes no sexo, tá?

Cansadas, cansados e cansades

Quem anda pelas baladas, ouve os hits que não saem do repeat ou aproveitou o último Carnaval e sentiu que o clima mudou. As letras das músicas, que viajam do sertanejo ao funk, entraram em uma fase de comandos repetitivos que parecem saídos de uma aula de ginástica rítmica.

É um movimento constante de sentar, quicar e rebolar que, embora a gente goste pra dançar e curtir, também fala muito sobre o espírito de um tempo em que a intimidade virou uma tarefa de alta performance. O sexo, essa troca que deveria ser uma das coisas mais gostosas da vida, ganhou uma roupagem mecânica e muitas vezes agressiva para quem se relaciona com homens.

Saiu do algoritmo e caiu na minha cama, rs

Essa vontade de performar o tempo todo tem um berço bem específico: a fragilidade do masculino e a ideia de prazer falocêntrico. 

Mas psicanálise à parte, as redes sociais e os cantos mais obscuros da internet também têm contribuído pra esse rolê. A gente vive mergulhado em narrativas que nascem em fóruns, canais de “estilo de vida” masculino e bolhas que pregam uma dominação absoluta — ainda que a gente nem perceba. O algoritmo entende esse interesse (dos homens) e essa receptividade (das mulheres e/ou de outras pessoas que se relacionam com homens) e entrega cada vez mais conteúdos que reforçam a ideia desse sexo monotemático. Daí isso aparece em forma de música, de cultura pop, de “diquinhas” e cai na nossa cama. O spoiler: quase ninguém gosta, mas seguimos repetindo.

Homens que transam com homens também sentem

“Eu tenho 32 anos, moro numa cidade em que ninguém tem tempo pra nada e sempre fui muito bem resolvido com o sexo casual, mas a situação chegou em um ponto insustentável. Desinstalei os aplicativos porque o clima ficou pesado e extremamente repetitivo — só quem usa o amarelinho sabe. Eu sei o que o aplicativo serve pra isso, mas parece que os caras estão presos em uma lógica onde tudo precisa ser agressivo, rápido e focado apenas no próprio ego. O sexo ficou totalmente sem espaço para explorar outras partes do corpo e da sensibilidade. É como se existisse uma pressão imensa para provar uma masculinidade tóxica, mesmo no mundo gay, através de uma frieza que eles acham atraente. Eu quero troca, quero sentir outras coisas, mas o que encontro é um bando de gente tentando seguir um roteiro de filme pornô que ninguém aguenta mais encenar.” Paulo, 32, SP.

E as mulheres? Nem se fala.

“Como mulher que se relaciona com homens, eu sinto que existe um abismo gigante na comunicação hoje em dia. Eu queria sair por aí com uma placa ‘casual não te dá direito de maltratar ninguém’. Parece que a maioria dos caras que eu conheço simplesmente não sabe mais a diferença entre um sexo forte, com pegada, e uma agressão sexual ou um comportamento desrespeitoso, sei lá se foi a cultura dos aplicativos que deixou tudo mas fácil pra eles, mas eles chegam com uma pressa e uma rispidez que não foram combinadas, como se estivessem encenando uma cena de filme que eles viram em algum lugar. É muito ruim precisar parar o momento para explicar o básico do consenso porque o cara decidiu que ia ser agressivo do nada. Essa cultura de controle que a gente vê o tempo todo na internet, com esses influenciadores de masculinidade tóxica, chegou na vida real.” Louise, 29, SP.

A inteligência artificial e a fábrica de fantasias extremas

A tecnologia deu um passo além com o uso de inteligência artificial para criar conteúdos de “soft porn” e deepfakes que levam a agressividade ao limite. Essas ferramentas produzem imagens e vídeos onde o consentimento e a humanidade não existem, focando apenas em ângulos impossíveis e atos de poder. O consumo desenfreado desse tipo de material acaba moldando o imaginário de muitos homens, que passam a acreditar que aquela estética é o padrão esperado.

Como isso se parece online?

Dê uma olhada nas bios dos aplicativos de namoro (veja, nem estamos falando daqueles que são exclusivos pra sexo) e você vai encontrar um catálogo de exigências físicas que ignora qualquer traço de personalidade. As descrições são as mais mirabolantes (saudades de quanto a única ‘exigência’ era ser solteiro e ter local, né? Rs) e tratam o encontro como uma compra em um site de varejo. Essa objetificação mútua é o combustível perfeito para que o sexo continue sendo essa experiência performática. Retomar o prazer passa por olhar nos olhos e entender que a potência de um encontro (mesmo casual) mora em outras coisas além de exigências e projeções, né?

A busca por novos caminhos de prazer

Diante desse cansaço generalizado, muita gente começou a procurar outras possibilidades para viver a própria sexualidade. O interesse por práticas como o tantra, o “slow sex” e até o detox de aplicativos de sexo cresceu de forma absurda. Esse movimento não é uma guinada conservadora, mas sim uma busca desesperada por algo que também dê prazer para o outro lado. Como seria resgatar o prazer que foi roubado pela performance e pela agressividade? Existe um desejo genuíno de redescobrir o próprio corpo e o corpo do outro sem a pressa do relógio ou a pressão dos ângulos de câmera.

Vamos conversar sobre o que a gente realmente quer na cama?

Como você faz para colocar limites quando a performance do outro começa a incomodar ou machucar?

Você também sente que o sexo ficou mais chato e mecânico nos últimos anos ou tem conseguido escapar dessa tendência?

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