Você não é feminista quando começa a excluir sua amiga só porque ela virou mãe, sabia?

Só quem passou por exílio emocional pós-maternidade sabe: por que nos deixam sozinhas no período em que mais precisamos?

“Eu não te chamei porque sabia que seu tempo tá mais curto com o bebê.” “Não te convidei porque achei que você não ia conseguir vir.” “Não é muito um rolê de mãe, então pensei em não te incluir dessa vez.”

Conta pra gente: você já ouviu frases parecidas com essas? Quem as diz, muitas vezes, acredita genuinamente que está poupando a amiga de alguma coisa, que tá guardando a energia dessa mãe pras tarefas dela, que tá sendo legal. Isso pode até fazer sentido ali no puerpério ou em momentos mais introspectivos da maternidade…Mas tem uma hora que cansa, viu?

A mãe que recebe esse tipo de explicação sucessivamente, quando recebe, porque muitas vezes não recebe explicação nenhuma, só percebe que parou de ser chamada, aprende a engolir o afastamento como se fosse natural, como se fizesse parte do pacote de ter filho.

Mas não deveria fazer, tá?

O isolamento social que acompanha a maternidade é um dos fenômenos mais documentados e menos discutidos da vida das mulheres. 

Uma pesquisa publicada no Journal of Health and Social Behavior mostrou que a transição para a maternidade é o evento de vida com maior impacto negativo sobre as redes de amizade femininas, superando inclusive mudanças de cidade e término de relacionamentos.

As mulheres perdem amigos quando têm filhos numa proporção muito maior do que os homens na mesma situação, e essa perda raramente é percebida pelo entorno como um problema que o entorno criou (afinal, quem pariu que balance, né?).

Os convites para sair minguam porque todo mundo parte de um pressuposto que parece gentil: ela deve estar cansada, ela agora tem outras prioridades, não quero incomodá-la. Os encontros em casa deixam de ser sugeridos porque o grupo imagina que a casa dela agora é um caos, que ela prefere descansar, que visita dá trabalho. As mensagens ficam mais esparsas porque a conversa ficou mais difícil, os assuntos em comum parecem ter diminuído, e ninguém sabe muito bem o que perguntar além de como o bebê está dormindo.

Se você é mãe, com certeza se identifica um pouquinho com alguma dessas situações. Isoladamente, essas decisões individuais parecem razoáveis. Mas o conjunto delas é um exílio.

Presumir que ela não quer é diferente de perguntar se ela quer, percebe?

Boa parte do afastamento que mães vivenciam não vem de amigos que decidiram excluí-las conscientemente. Vem de amigos que decidiram por elas, com as melhores intenções, que elas provavelmente preferem ficar em casa, que provavelmente não têm energia para sair, que provavelmente estão bem assim.

Mas não ser lembrada, considerada e convidada (mesmo que ela recuse por questões de filho pra criar) já é uma exclusão. E quando isso se repete por meses, por anos, quando a primeira infância de um filho dura e o afastamento acompanha cada fase, o que se instala é justamente a sensação de que a pessoa que ela era antes simplesmente deixou de importar para as pessoas que ela amava.

Quanto tempo faz que você perguntou para a sua amiga mãe o que ela queria fazer, em vez de assumir o que ela provavelmente preferia?

O nosso feminismo não pode esquecer as mães

A maternidade ocupa um lugar estranho nos círculos de mulheres que ainda não são mães ou que não têm filhos pequenos. Por um lado, existe um discurso crescente de valorização do trabalho materno, de reconhecimento do quanto maternar é exaustivo e invisibilizado. Por outro, na prática cotidiana das amizades, essa valorização raramente se traduz em incluir a amiga mãe nos planos, em adaptar o programa para que ela consiga ir, em manter o vínculo ativo mesmo quando a dinâmica mudou.

Parte disso vem de algo que também foi aprendido, mesmo por mulheres mais progressistas ou feministas: a ideia de que mãe e vida social são esferas separadas, que depois que uma mulher tem filho ela migra para outro universo de conversas e interesses, que o que ela quer agora é encontrar outras mães e falar sobre maternidade. Essa suposição, além de redutora, é o que alimenta o ciclo. Ela não quer necessariamente falar sobre maternidade a noite toda, sabe? Talvez ela queira sair, rir de outras coisas, ser lembrada como alguém que existia antes do filho e que continua existindo junto com ele.

Claro que apontar que amigas abandonam mães não é um convite para que todo mundo se sinta péssimo e pare por aí — xô, culpa individual. A maioria das pessoas que se afasta de uma amiga depois que ela tem filho está agindo dentro de um script social que nunca foi questionado e que foi ensinado desde muito cedo, com exemplos de mães, tias e avós que realmente não viviam para além do maternar.

Mas como tudo o que foi ensinado, isso também pode ser desaprendido. O que muda quando é o gesto concreto: mandar a mensagem perguntando se ela quer sair, e não pressupondo que não quer. Sugerir ir até ela, em vez de esperar que ela apareça quando puder. Perguntar como ela está, não só como o bebê está. Fazer um plano que a inclua, mesmo que o plano precise de adaptação, que o horário seja diferente, que o lugar seja outro.

Queremos saber

Quando foi a última vez que você ligou para uma amiga mãe sem ser para falar sobre os filhos dela?

Você já deixou de convidar alguém para algo porque assumiu que ela não poderia ir, sem perguntar?

Se a sua amiga estivesse passando por qualquer outra transição difícil, você teria se afastado da mesma forma?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

COMPARTILHE:

Quer mais conteúdo?